Reflexões Pessoais, Sri Lanka

Travesseiros, feijões e lágrimas

O Brasil ficou para trás. E atrás de mim ficaram também pessoas que amo, meu país e minha cultura. À minha frente, estende-se toda a imensidão do mundo novo que me rodeia; a Ásia e suas cores, o Sri Lanka, seus sabores e costumes. De agora em diante, somos eu e Deus, caminhando a cada dia por lugares ainda não vistos e nos aventurando cotidianamente por histórias que encherão meus netos de orgulho.

Dia 27 de janeiro minha jornada teve início. Ao me despedir dos meus em Londrina, PR, impossível foi segurar as lágrimas. Não estava triste. Sentia-me emocionado e previamente atingido pela possível saudade que viria (e veio!). Dizia, antes da viagem, do alto de minha soberba, que não olharia para trás ao entrar no avião, acreditando que assim seria menos custosa a despedida. Bobagem. Meu instinto me traiu e, como num golpe (o mais amável, por sinal, que já me assolou), olhei para o vidro espelhado do terminal e dei um último adeus. Todos foram e se esforçaram para estar lá e me desejar um último “Boa viagem, que Deus esteja contigo”.

Ali ficava, além dos meus amados, uma parte de minha história. O desprendimento e o desapego não são atitudes fáceis, mas muitas vezes, durante uma experiência como essa, acabam surgindo sem que percebamos. Quem melhor pode dizer isso é meu travesseiro que, no ápice da minha emoção, foi brutalmente alijado de participar desta viagem e esquecido, ao melhor estilo Macaulay Culkin, na sala de embarque. Sorte que minha “equipe de solo” trabalha bem e, tão logo desembarquei em solo paulista, já fui informado de seu devido resgate.

Imagem

Tive, por algumas horas antes de pegar o primeiro voo internacional, uma agradável e surpreendente conexão. Os mesmos aviões, que sempre me acordavam quando era criança e me assustavam de madrugada, dessa vez me conduziam ao lugar onde tudo começou. Em Guarulhos comi meu último feijão, tirei muitas fotos e fiz uma das maiores descobertas da minha vida: descobri que multas de transito não passam de pai pra filho; mas o amor dos amigos verdadeiros, esse passa e tem um elevado índice de contágio.

Meus pais plantaram boas sementes que, naquele  27 de janeiro, pude experimentas seus saborosos frutos de carinho e afeto. Seus amigos, que por força da hereditariedade e dos sentimentos também chamo de meus (umas trinta pessoas, algumas das quais não via há anos), reuniram-se para rezar, cantar e me abraçar, desejando-me toda a sorte e sucesso do mundo. Pra finalizar, a despedida no aeroporto com abraços apertados das duas “Co-Maes” que tenho em minha vida (Dona Gisa não irá se entristecer com esse nobre título por mim concedido a elas). Obs: na foto abaixo encontra-se apenas uma parcela dos muitos que ali estavam.

Imagem

Ufa!  Foi um grande dia. Tudo o que todos me disseram e desejaram está guardado em meu coração. José de Camargo, mas, para os íntimos, Zezé, já dizia, lançando mão de seu agudo muito bem trabalhado em calças de couro e esporas, que no dia em que o filho sai de casa, quer voar. E eu voei. Literalmente. 14h de um longo e sonolento, porém não menos muito confortável, voo por cima do Atlântico e do Saara.

Muitos pensamentos passaram pela minha cabeça no momento em que saí do chão brasileiro. Oxalá eu pudesse me ver de fora de mim mesmo naquele avião e pudesse encontrar esse Gabriel aventureiro que tanto inspira admiração e inveja-boa. Sentia muito medo do desconhecido que se apresentaria a partir daquele momento a minha frente.

Ao pousar em Dubai, segunda conexão até meu destino final, sofri o primeiro choque cultural dos muitos que acredito que terei. Quantas roupas nas mulheres (algumas da cabeça aos pés); quão grande e luxuoso aeroporto; quantas línguas faladas no mesmo espaço; e no meio disso tudo, algo me captura a atenção: “Vem filho, não corre por ai não”. Atrás de uma bola, sempre vem uma criança. E atrás de uma criança, sempre vem um pai preocupado. Agora, no aeroporto de Dubai, uma criança usando Havainas?! Ao menos, suspeito.

Conheci, no meio daquela loucura árabe naquele terminal, um casal muito simpático e determinado de brasileiros, Fábio e Bárbara, com seus dois filhos, voltando para casa. Ele, professor de artes marciais, e ela, mãe e dona de casa (“artes” estas que muitas vezes exigem maior destreza e agilidade do que qualquer luta) moram em Perth, Austrália, e me deram a alegria de um delicioso lanche compartilhado, regado à um bom papo em português. Aqueles breves momentos me fizeram sentir muito bem e aliviaram um pouco a dor da minha partida.

ImagemAli tive a certeza de que viajar é muito mais do que apenas sair de casa. É, sobretudo, ir ao encontro do novo, é sair de si mesmo e estar aberto ao desconhecido, que quase sempre é surpreendente. Esta linda família de brasileiros foi a primeira de muitas ótimas surpresas que com certeza terei.

Depois de mais 4 horas de viagem, cheguei ao Sri Lanka e fui muito bem recebido pelo Irmão Vitor, vestindo sua tradicional roupa branca que os Irmãos Maristas aqui utilizam, com um sonoro: “Gabriel, are you? Welcome to Sri Lanka!” e um largo sorriso.  Após essa grande “epopeia”, apesar de cansado, não me engano: estou contente com tudo o que estou vivendo, apesar das primeiras dificuldades de adaptação (que serão alvo de um próximo texto). Estar mais perto de culturas distintas das minhas e poder fazer o bem aos outros é algo que me dá a sensação de poder ser o melhor de mim. E não há nada neste mundo que satisfaça mais do que a gente ter a certeza de estar extraindo de si mesmo o mesmo que podemos ser.

Anúncios

10 thoughts on “Travesseiros, feijões e lágrimas”

  1. Beans and friends, sweet combination … Atlantic and Sahara immense sea of contradictions … life is so sweet and even contradictions, it teaches us and motivates us … My son flies … flies!! father

    Curtir

  2. INCRÍVEL!!!
    Simplesmente incrível o seu texto Gabriel, parabéns!!!
    Até me emocionei porque quantas e quantas vezes passei pelas mesmas sensações… deixar a família, os amigos, um amor… só quem já passou sabe.
    Bravo!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s