Sri Lanka

33 que valeram por 100

Durante este quase um mês e meio aqui no Sri Lanka, o lugar que mais visitei, com toda a certeza, foi a sala de espera do departamento de imigração. Por uma estranha – e não menos desastrosa – coincidência de falta de informação e comunicação, quase fui obrigado a pegar o avião e voltar até Brasília para buscar um único e simples carimbo (como se Brasília fosse logo ali, passível de ser alcançada por qualquer “tuc-tuc” Sri Lankês). Após uma longa e estressante “batalha”, na qual utilizei todos os armamentos disponíveis para um simples brasileiro desamparado no sul da Ásia (e aqui faço uma ressalva em agradecimento ao corpo diplomático brasileiro presente na cidade de Colombo, em especial ao Vice-Cônsul José Luís de Campos Bonfim e ao Ministro-Conselheiro José Roberto Procopiak que, de forma extremamente simpática e solícita, não apenas fizeram tudo que estava ao seu alcance para me ajudar, como também me acalmaram e, por algumas horas, fizeram sentir-me no aconchego de minha casa, mesmo que estivesse apenas dentro da embaixada), fui autorizado a iniciar meu trabalho com um visto temporário de três meses.

Todavia, o que eu jamais imaginava era que as minhas idas ao departamento de imigração e todo o imbróglio desse processo não eram um “fim em si mesmo”, mas sim o “meio” pelo qual pude entrar em contato com diversas situações, algumas das quais marcaram profundamente meu coração. Muitas levo comigo, no silencio da minha viagem. Por outro lado, tenho o orgulho e a alegria de relatar neste texto a principal e mais importante delas.

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Não tenho o costume de frequentar departamentos de imigração em outros países, muito menos dento de meu próprio. Contudo, acredito ser uma constante em qualquer lugar do mundo os adjetivos que aqui utilizarei. Estava eu, com meus documentos todos devidamente preenchidos e assinados nas mãos, dentro de um grande salão onde eu pude “saborear” o significado da expressão “globalização”. Ali havia de tudo e em grande quantidade: monges budistas meditando enquanto aguardavam serem chamados; turistas com camisas floridas e chinelos; mulheres de burca das quais só conseguia enxergar os olhos; homens com olhos puxados (e ai eis a dúvida se eram Chineses, Japoneses ou Coreanos); senhores engravatados com caras “amarradas”; muçulmanos ortodoxos com suas longas barbas alaranjadas e pequenos chapéus brancos; enfim, uma verdadeira torre de babel onde muitos se perdiam com a falta de informação e poucos se encontravam, apesar de não conseguirmos desencostar uns dos outros por muito tempo por conta do aperto do lugar.

Minha curiosidade sempre me levava a dar uma esticada de olho e tentar enxergar, no passaporte da pessoa à minha frente, o nome do país de origem de seu portador. Eis que, em umas dessas muitas visitas, estou em uma fila e me deparo com um passaporte escrito: “Mercosul”. Fiz questão de dar um passo a diante e, quase aos berros, li em voz alta: “República Federativa do Brasil”.

“E ai cara, tudo bem?”

Impossível foi descrever a minha alegria e emoção em externar este simples cumprimento, muitas vezes corriqueiro, mas que, após mais de um mês sem falar nada na minha língua nativa, adocicavam minha boca. O susto do dono do passaporte em ouvir-me foi diretamente proporcional à sua alegria, que logo contrapôs: “Brasileiro??? Puxa, que bom falar português. Estou bem, meu nome é Alex. O que faz por aqui?”. “Nossa – pensei eu – é um brasileiro mesmo!!!”.

Segundo informações, existem, atualmente, no Sri Lanka cerca de 6 brasileiros (isso mesmo, não me enganei, SEIS). Por mais que tente, não sei quantificar a probabilidade, mas tenho certeza que, estatisticamente, minha chance de encontrar um brasileiro dentro daquela sala e, não apenas ali, mas, sobretudo, na minha frente na fila, era a mesma de encontrar um marciano. Eu e Alex representávamos, naquele instante, 33,3% da colônia brasileira em solo Sri Lankês. Não tivemos muito tempo de conversa, já que estávamos ambos com pressa e logo fomos chamados, mas trocamos nomes e telefones.

Mais de uma semana depois, estou eu me preparando para voltar para Kalpitiya (cidade onde resido e trabalho atualmente e que será alvo de um próximo texto) e recebo uma ligação: “Olá Gabriel, é o Alex. Estou indo embora amanha para o Vietnã pra continuar minha “peregrinação”. O que você acha de nos encontrarmos hoje, antes de eu ir embora?”. Não tive dúvidas e com muita alegria anotei o endereço do ponto de encontro.

Muito simples e dono de um largo sorriso, Alex é um rapaz de 23 anos, oriundo de Mendes (Rio de Janeiro), recém-formado em Relações Internacionais pela PUC-Rio e que decidiu “perder” uns meses de sua vida desenvolvendo trabalhos sociais aqui na Ásia através de uma organização internacional chamada AIESEC, presente em muitas universidades brasileiras. Sua viagem começou em agosto de 2013 e ele já esteve nesse período nos seguintes países: China, Etiópia, Malásia, Tailândia, Sri Lanka e atualmente encontra-se no Vietnã. Ele possui um blog, blogaquieassim.wordpress.com, e uma Fan Page, facebook.com/aquinomundoeassim, nos quais conta um pouco de suas experiências pelos lugares onde passou. Ávido por aventura e descortinando os países nos quais se encontra, este jovem rapaz que encontrei trouxe lágrimas aos meus olhos ao me levar a um dos lugares mais incríveis que já estive: encontramo-nos em um dos orfanatos que ele trabalhava, nos arredores de Colombo.

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Este lugar mantém, de maneira modesta, porém visivelmente com muito carinho, 150 crianças de diversas idades órfãs devido a situações diversas, desde aquelas mais “comuns” (e solicito ao leitor que acrescente infinitas aspas à palavra anterior) como pais que não querem cuidar de seus filhos, até aquelas que perderam sua família no Tsunami ou na Guerra Civil que teve fim em 2009 e durou cerca de 30 anos.

Ao chegar, ele já havia terminado seu trabalho e tão logo me avistaram, fui abalroado por uma avalanche de crianças correndo em minha direção, abraçando minhas pernas, beijando meus joelhos, perguntando meu nome, minha idade, de onde eu era, se eu queria brincar com elas. Confesso que minha primeira reação, com o choque, foi a de não saber o que fazer. Contudo, Alex começou a brincar com elas e aos poucos fui também me soltando. Ele estava descalço, vestindo apenas um short e uma camiseta e, rolando na terra com aquelas crianças, me fez ter vontade de voltar no tempo e ser criança de novo.

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É fácil de saber quando se está no lugar certo, na hora certa, da forma certa. Temos a estranha sensação de que o tempo para e de que a terra não gira. Naquela 1h e pouco (e confesso que ao escrever esse texto já não sei mais quantificar em minutos quanto tempo passei ali) me senti dessa forma. Apesar da realidade sofrida e muitas vezes chocante, com histórias que encheriam de lágrimas até o mais frio dos nazistas, a pureza e a simplicidade daquelas crianças e a entrega e alegria em estar sendo útil daquele jovem brasileiro mexeram profundamente comigo e me fizeram relembrar, depois de dias de muito nervosismo por causa da burocracia da imigração, o porquê de eu estar aqui e ter aceitado esta missão.

A realidade de qualquer orfanato é muito parecida, seja aqui no Sri Lanka, no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Crianças que crescem rodeadas de irmãos, mas sem cuidado materno e paterno. Aquelas crianças, mesmo que com simplicidade, e através do trabalho de pessoas caridosas, tem roupas, comida e um teto pra dormir. Todavia, e apesar da dedicação de pessoas como Alex, lhes falta amor e atenção; lhes falta carinho de pai e mãe; lhes falta aquele beijo de boa noite; lhes falta aquele sopro no machucado; lhes falta aquela torcida de orelha quando não escova os dentes direito. São carentes de afeto, sem, contudo, perder o brilho no olho e a singeleza típicas de uma criança.

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Os poucos minutos que passei com elas, nos quais apenas a minha presença foi a alegria do dia delas, iluminaram a minha vida. Sai de lá me sentindo o pior dos seres humanos, mesquinho com minhas reclamações cotidianas, nas quais muitas vezes torço o nariz por questão que, ao conviver com aquelas crianças, se tornam fúteis, e miserável por muitas vezes não dar valor ao que tive e tenho. Não obstante, deixei aquele lugar com a esperança renovada, feliz em saber que existem pessoas que lutam e se dedicam para dar àqueles pequenos o necessário para sua educação, saúde e bem estar, já que situações tão trágicas quanto tristes lhes roubaram o direito de conviver com suas famílias.

Despedimos-nos no ponto de ônibus: ele seguiu seu caminho e eu, entorpecido pela docilidade do sorriso daquelas crianças, voltava transformado para casa. Este foi um momento incrível que a eventualidade me presenteou e espero um dia, ao voltar para o Brasil, me encontrar novamente com esse ser humano maravilhoso que o acaso colocou no meu caminho, dono de um coração sem tamanho que fazia questão de se despedir de cada uma das crianças com um beijo e um abraço e que me disse, em prantos: “Cara, eu não encontro alegria tão verdadeira em outros lugares como encontrei no sorriso das crianças desse lugar”. Quero reencontrá-lo para poder agradecer pessoalmente por esse momento em que, mesmo sem querer, tive meu coração 100% preenchido por sua genuína “brasilidade” e pelo olhar profundo e alegre daquelas crianças.

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12 thoughts on “33 que valeram por 100”

  1. Os olhos se enchem de lágrimas em cada palavra… em cada texto que vejo o que está fazendo e o quanto ainda irá fazer pelos que passam em seu caminho… Pe Fabio de Melo fala sempre na “docilidade de coração” e também em “fazer o bem sem esperar nada em troca”… e você está fazendo isso meu filho… fazendo o bem sem esperar nada em troca… obrigado por me fazer feliz e obrigado por ser meu filho… te amo.( PS – Muitas pessoas de bom coração ainda passarão pelo seu caminho… pode ter certeza… )
    Teu pai…

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  2. É muito bom poder acompanhar o que está acontecendo aí…vibramos juntos! Obrigada por compartilhar conosco e por escrever de uma forma que nos envolve com a mesma emoção!

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  3. Boa Paulistão, parabéns por sua missão aí!!! Continue postando suas experiências, sempre que possível; pois relatos como esse, também nos serve de inspiração aqui e nos fazem refletir, querer fazer a diferença!

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  4. Meu amigo, Gabriel. Estou em prantos…. lágrimas de alegria, de tristeza, um emaranhado de sentimentos invadiu meu coração. Deus se utiliza das pessoas mais diferentemente iguais, dos lugares mais distantemente perto, das circunstâncias mais equivocadamente certas para nos dizer o que Ele quer que aprendamos. Deixamos de ser meros espectadores para sermos protagonistas não apenas da nossa história mas dos outros também. Invertemos papéis, mas Deus é o mesmo. A sua docilidade nos encanta, seduz, embriaga. E a maior docilidade de Deus está no olhar de uma criança. E ver e viver isso é um milagre, um mistério. Obrigada, Gabriel por partilhar desse seu milagre conosco. Continuarei a rezar por você e agora, pelo seu novo amigo Alex. Um forte abraço. Maria Cecilia

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  5. Na primeira vez que li essa sua experiência eu não tive condições de comentá-la, fiquei extasiada, pois por mais coincidências (ou melhor presença de Deus) que eu como mãe já vi em sua vida, essa sem dúvida foi a que me trouxe os sentimentos mais fortes e as lágrimas mais sinceras, em acreditar que ELE age por você e em você. Penso saber o que isso tenha significado para você, esse momento, mas os sentimentos de felicidade devem ter sido mais intensos do que podemos imaginar. Obrigada por partilhar essa experiência conosco, pois ela também traz um grande significado a cada um que o lê e com certeza sentimentos de enorme felicidades àqueles que te amam e são agradecidos por você se colocar, com coragem e depreendimento, nesse caminho! Saudades sempre em oração constante! Te amo filho!!

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  6. Deus coloca as pessoas certas nos momentos exatos. É de pequenos momentos como estes que entendemos o sentido da palavra de Deus e da nossa missão aqui na Terra. Deus te abençoe sempre, amigo!!

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