Publicações

Folha de Londrina – 27/Abr/2014

Compartilho com vocês reportagem feita por Thiago Nassif sobre a viagem e o trabalho desenvolvido por mim aqui no Sri Lanka. Obrigado a todas pelas palavras de incentivo. Desejo, com o coração repleto de esperança, que tenhamos uma sociedade mais solidária, que olhemos mais para os outros. Não é necessário vir para o outro lado do mundo. Essa foi a minha missão, o meu chamado. Contudo, existem muitas realidades com a mesma necessidade (e as vezes mais) do seu trabalho, da sua doação e do seu despojamento, aí perto de você.

Gabriel e sua missão: transformar o mundo

Advogado e Cientista Social, Gabriel Bernardo da Silva fala de sua missão no Sri Lanka; para ele, a experiência possibilita “grande encontro” com limitações e potencialidades.

Natural de Guarulhos (SP), mas há dez anos residindo em Londrina, o advogado e cientista social Gabriel Bernardo da Silva sempre teve o sonho de transformar o mundo. Há dois meses, ele viajou, por meio do Voluntariado Internacional do Instituto Marista, para o Sri Lanka. “Sou parte da missão Marista no mundo, que é ser presença e fazer a diferença em territórios de vulnerabilidade social por meio da educação.” 

Até setembro no Sri Lanka, Gabriel, que é especialista em Direito Econômico Internacional, ensina inglês a crianças e jovens do país asiático assolado por mais de duas décadas de guerra civil e devastado pelo tsunami que deixou, como saldo, há dez anos, 50 mil mortos e prejuízos superiores a 1,5 bilhão de dólares. “Meu trabalho consiste em criar oportunidades para que essas crianças e adolescentes possam sonhar com um futuro diferente”, revela. 

Em entrevista à FOLHA, o advogado, de 25 anos, fala de sua rotina, dos costumes, do choque cultural e, claro, da saudade de casa. “O contato com as crianças é sensacional e faz valer a pena a saudade. Sempre tive um sonho idealista de transformar o mundo e estou podendo, de fato, agora, fazer alguma coisa, por menor que ela seja.” 

Como surgiu a oportunidade de ir trabalhar no Sri Lanka? 

Faço parte de um novo programa de voluntariado do Grupo Marista, mas antes de mim outras pessoas já vivenciaram a experiência voluntária em outros países. Tudo começou quando me mudei para Londrina, há dez anos. Desde aquela época, participei das atividades de voluntariado solidário promovidas pelo núcleo de pastoral do colégio. A partir dessas experiências, me senti “chamado” a vivenciar uma nova entrega em voluntariado. 

Quais as impressões do país? 

O Sri Lanka é um país bem jovem, conquistou sua independência em 1948, passou por um período de guerra civil de quase 30 anos que acabou em 2009 e nesse meio tempo, em 2004, foi assolado pelo tsunami, que matou cerca de 50 mil pessoas. É um povo formado por duas grandes etnias (cingalês e tâmil) e quatro grandes religiões (hinduísmo, islamismo, catolicismo e budismo). A cultura e a sociedade são muito diferentes do que estou acostumado no Brasil, desde o jeito de se vestir, as comidas, a língua, tudo é bem diferente, mas muito legal. As pessoas no Sri Lanka são muito simpáticas e amáveis, sempre sorridentes e solícitas. 

E qual sua missão? 

Eu trabalho em uma casa/escola junto com os Irmãos Maristas, em uma cidade chamada Kalpitiya, no noroeste do Sri Lanka, e nosso trabalho aqui é dar aulas de inglês para as crianças da comunidade e ser presença significativa e transformadora em suas vidas. Todo o Ensino Fundamental, por aqui, vai até os 16 anos, e é em cingalês ou em tâmil. Para ir ao Ensino Médio, o aluno tem de fazer uma prova, como um vestibular. Se aprovado, tem a chance de ir para o Ensino Médio, dando continuidade aos seus estudos. Ocorre que esse vestibular é em inglês. Onde estamos, as aulas do idioma são muito deficitárias e, caso não aprovadas nesse exame, as crianças aqui não têm o que fazer a não ser virarem pescadoras ou cultivarem cocos, como os pais fazem. Kalpitiya é uma vila bem pequena e a economia dessa pequena cidade gira em torno disso. 

Gabriel entre as crianças: ele dá aulas de inglês à ala mirim

Como é sair de sua “zona de conforto”? 

Olha, é bem desafiador! Tudo aqui é um grande desafio. Absolutamente tudo. Nada é algo “tranquilo” e isso faz com que todos os dias eu tenha de me superar. Coisas que no Brasil são simples e muitas vezes a gente faz sem perceber que está fazendo, aqui se tornam um grande desafio, como, por exemplo, falar “bom dia” para alguém. Estou me esforçando muito para aprender a língua que os alunos falam, mas até o alfabeto é diferente. A comida também é algo bem desafiador. O costume gastronômico do Sri Lanka e dessa parte da Ásia em geral é utilizar muitos condimentos, muitos temperos, muita pimenta, e eu não estava acostumado com isso. 

E a saudade da família? 

A saudade também é algo que tenho lidado bastante. Deixei no Brasil família, namorada, amigos e sinto muita falta desse contato. Mas tenho certeza que estão muito felizes por mim e torcendo bastante para eu voltar logo, cheio de histórias boas para contar. No fundo, sair da zona de conforto é um grande encontro com você mesmo, com suas limitações e potencialidades. Quando você se “esvazia” de você mesmo, de sua cultura, dos seus costumes, você consegue enxergar melhor quem você é. 

Quais, até o momento, as experiências mais marcantes? 

Nesses dois meses que estou aqui tive muitas experiências marcantes. O dia a dia com os alunos é sempre um momento bacana. As crianças já se acostumaram com a minha presença, mas sempre que me veem querem conversar, perguntar alguma coisa em português. Por ser brasileiro, o tempo todo querem jogar bola comigo. Um momento marcante que tive foi a minha primeira aula. Era uma turma com sete alunos, numa sala muito simples, mas o interesse e a garra dos meninos me marcaram. 

Outra experiência marcante foi uma visita que fiz a um orfanato de crianças que perderam os pais ou na guerra ou no tsunami. Crianças marcadas por desastres horríveis e que não deixam de ter o brilho no olhar, aquela pureza, sabe? Achei que vinha para “doar” muito de mim, mas tenho percebido, nesses primeiros dois meses, que estou recebendo muito mais com as experiências que tenho tido, em forma de autoconhecimento e de sentimentos positivos. 

Quais seus planos e projetos? 

No momento, tenho o plano que ficar no Sri Lanka o tempo combinado e desenvolver o melhor trabalho possível com essas crianças, seja dando aulas, estando com os meninos, jogando futebol ou críquete, que é a paixão nacional. Muitas vezes, temos aquela necessidade de “fazer, fazer, fazer” para sentir que nosso trabalho está sendo realizado. Contudo, com esses meninos, nessa experiência, o “estar junto” conta muito, ser presença significativa na vida dessas crianças e jovens. 

Por: Thiago Nassif – Folha de Londrina 27/Abr/2014

Disponível em: http://www.folhaweb.com.br/?id_folha=2-1–3409-20140427&tit=gabriel+e+sua+missao+no+sri+lanka

Anúncios

1 thought on “Folha de Londrina – 27/Abr/2014”

  1. Filho… aquilo que fazemos, aqui, alí, acolá, tem o tamanho do nosso coração. O que falou da necessidade de fazer aqui, ao nosso lado, só vai mostrar que necessitamos sempre estender a mão… que a sua mão estendida aí, bem longe, seja o início de um trabalho que muitos assim o farão também… iniciando sempre por aqui como você um dia também começou… lembra das Missões Solidárias aqui no Brasil ? Pois é… sua missão, como também a nossa, é estar sempre com as mãos abertas… Beijo. Saudades !

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s