Sri Lanka

A Lágrima do Índico – Parte I

Pense numa ilha distante, sobre a qual poucos ao seu redor saibam de sua existência, e menos ainda nela estiveram. Um lugar longínquo, com cultura, costumes, língua e tudo mais o que você quiser bem distintos do que você está habituado. Adicione a isto as quatro principais religiões do mundo exercendo forte influência sobre a vida cotidiana dos cidadãos. Acrescente, ademais, duas grandes etnias, três colonizações europeias, três línguas oficiais (cada qual com seu alfabeto próprio), tudo isso dentro de um espaço menor que o estado do Paraná; uma grande guerra civil e o maior desastre natural da história da humanidade – o Tsunami de 2004. Pois bem, seja bem vindo ao simpático, acolhedor e multicultural Sri Lanka. Tentarei, aqui, fazer uma breve contextualização histórica. Ressalto o “breve” porque a diversidade é muito grande.

Ao sair do Brasil, sabia pouco (ou quase nada) sobre essa pequena ilha ao sul da Índia. Chegando por aqui, ao me apresentar como brasileiro, posso afirmar que 100% das vezes a resposta, logo em seguida ouvir o nome do meu país, foi: 1º – Futebol; 2º – Ronaldo; 3º – Rio de Janeiro; 4º – Amazônia. Ficava, num primeiro momento, bravo e desapontado, pois sabia que a grandeza do Brasil ia além desses pontos. Contudo, após certo tempo, desci do alto de minha soberba e comecei a me questionar: E eu? O que eu sei sobre o Sri Lanka? Talvez as respostas que obtivesse naquele momento fossem tão (se não mais) estereotipadas quantos as que eu ouvi sobre o Brasil.

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Com cerca de 20 milhões de habitantes em um território de 432 km (Norte-Sul) por 224 km (Leste-Oeste), essa pequena ilha conhecida como “A Lágrima do Índico”, devido ao seu formato e que se chamou “Ceilão” até 1972, tem um povo muito acolhedor e solicito, formado, basicamente, por duas grandes etnias: Cingaleses e Tamils. Os Cingaleses se auto intitulam os “verdadeiros” Sri Lankeses por conta de muitos Tamils terem imigrado da Índia no início do século III, cruzando a estreita faixa de mar (24km) que separa os dois países ao norte, e também, posteriormente, terem sido trazidos pelos Britânicos para trabalharem nas plantações de chá. Isso, por sinal, foi o motivo de muitos conflitos ao longo dos séculos entre estes dois grupos, sendo o principal deles a guerra civil pós-independência, que apenas acabou em 2009, mas que até hoje se podem sentir reflexos de sua crueldade e violência por todo o país.

O Sri Lanka não foge muito à regra de muitos outros países fora do continente europeu e possui sua história marcada por colonizações do “velho mundo”. Até sua chegada aqui, o país era dominado por Reinos Budistas que alternavam sua influência sobre o território da ilha, sem, contudo, grandes conflitos. Até hoje é possível encontras espaços históricos intactos deste momento peculiar da história Sri Lankesa, como, por exemplo, a cidade de Anuradhapura (primeira capital) ou mesmo Kandy (última capital antes do domínio Britânico). Houve, a partir no século X, uma importante presença de mercadores Árabes na região, o que explica, em parte, a existência do Islamismo na ilha.

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Passagem por Anuradhapura, a primeira capital e que preserva grandes espaços históricos.

No período das grandes navegações (momento este em que, por volta de abril de 1500, um bigodudo português chamado Cabral exclamou, ao avistar as belas praias do litoral baiano, “Terra a vista” e colocou suas botas em solo tupiniquim) a corrida por novas rotas para a Índia fez com que o Sri Lanka se tornasse importante entreposto comercial, haja vista sua estratégica posição geográfica. Os primeiros a chegar e “tomar posse” foram nossos colegas Portugueses em 1505, liderados por Lourenço de Almeida. Naquele momento a ilha se encontrava dividida entre os acima mencionados Reinos Budistas que, ao se deparar com a invasão europeia, se unificaram para poderem lutar com mais força. Os Portugueses dominaram apenas a região da costa do Sri Lanka e os antigos reinos permaneceram dentro do território.

Poucos anos depois, apoiados pela rivalidade entre budistas e Portugueses, os Holandeses conseguiram tomar o controle da ilha. Perseguiam os católicos (por ser uma herança de Portugal) e concediam liberdade religiosa aos Hindus, Budistas e Muçulmanos, apesar de cobrarem elevados impostos de todos. Tomaram grande parte do território, coexistindo ao reino de Kandy, principalmente na faixa litorânea. Permaneceram por aqui por pouco tempo, cerca de 60 anos.

No início do século XIX, com as guerras napoleônicas, a Holanda foi invadida pela França e para assegurar o controle e influência aqui na região, o Sri Lanka foi invadido pelos Ingleses que, em 1815 tomaram o controle da ilha. Aqui estabeleceram uma forte produção do produto mais britânico de todos (e se engana aquele que pensou no 007, relógios de bolso ou guarda chuvas): até os dias de hoje o país é mundialmente conhecido como grande produtor e exportador de Chá. As montanhas do centro do Sri Lanka foram o local escolhido para iniciar a produção com vistas ao mercado externo e que, com a recusa dos cingaleses de trabalharem nas “Reais Plantações de Chá”, trouxeram mão de obra estrangeira (Tamil) para aqui desenvolver seu cultivo. (Qualquer semelhança com a história do Brasil ou mesmo de qualquer outro país que tenha sido colonizado por europeus não é mera coincidência. As práticas colonizadoras foram adotadas da mesma maneira e, guardadas as adaptações culturais, com a mesma intensidade e brutalidade).

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Fotos de Kandy, na região central do Sri Lanka, última capital antes do domínio Britânico.

A ilha prestou reverência à Rainha até 1948, quando, no dia 4 de fevereiro, conquistou sua independência. É possível notar resquícios das três culturas europeias na vida cotidiana dos Sri Lankeses, misturados com os costumes locais e as tradições religiosas. Sobrenomes portugueses como “Pereira, Fonseca, Souza, Silva” e nomes como “Felipe, Rodrigo, Fernando” são comuns na ilha. A qualquer momento do dia ou da noite, o Sri Lankes está disposto a parar o que está fazendo para tomar uma xícara de chá. Assim como no Brasil, onde qualquer lugar vira campo, qualquer pé de meia vira bola, qualquer bloco de concreto vira trave e o futebol é praticado por todo o país, o Críquete é a paixão nacional e por todos os cantos, é possível ver pessoas de todas as idades com os tacos, bolas e “stamps” jogando. (Para apenas efeito de comparação, o Críquete é o nosso conhecido “Bets” – ou em alguns lugares chamado de “Taco” – melhorado, com mais jogadores e regras). Atualmente somos (e uso o verbo nessa conjugação, me incluindo nessa porque estava aqui quando aconteceu) os atuais campeões mundiais de Críquete, batendo a poderosa Índia na final. Seus principais jogadores são Angelo Mathews e Lasith Malinga. (Vide link abaixo:)

https://www.youtube.com/watch?v=Gk1FkPpCcVI

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A partir da independência, deu-se início um período de “trevas” na história Sri Lankesa. O que era pra ser um período de abertura econômica, elevado desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida da população transformou-se em um cenário hostil e de disputas internas. Cingaleses e Tamils nunca se deram muito bem. Contudo, o auge de suas desavenças aconteceu na Guerra Civil do Sri Lanka. Não há dados oficiais do número de mortos, pois ambos os lados tiveram muitas baixas (estima-se 70 000 mortes). Contudo, organizações humanitárias internacionais apontam que cerca de 1 000 000 de pessoas tiveram que sair de suas casas e fugir para campos de refugiados devido ao conflito, que ocorreu no período de 1983 a 2009, entre o exercito (controlado pelo governo central) e o Grupo Revolucionário chamado “Tigres da Libertação do Tamil Eelam” (exercito paramilitar da etnia Tamil situado na região norte do país).

Confesso que é muito difícil encontrar material aqui que retrate o conflito e que descreva de forma imparcial (e em inglês) o que de fato ocorreu. As hostilidades tiveram início quando um dos primeiros ministros (de origem cingalesa), logo após a promulgação da nova constituição, instituiu o Cingalês como a (única) língua oficial do país. Alguns outros acontecimentos deram força ao movimento nacionalista do norte que buscava a separação e a criação de um estado Tamil. Muitas táticas de terrorismo – ataques suicidas a hospitais, escolas e bases do exercito, e bombas escondidas em trens e estradas – bem como assassinatos de líderes políticos marcaram profundamente a vida da população, de ambas as etnias, que viviam em alerta e com medo constante de algo acontecer. Não existem vitoriosos em uma guerra. Existem aqueles que perderam mais e aqueles que perderam menos. Mas, com toda certeza, a população civil e o país como um todo são os que mais perderam. Essa é uma ferida aberta na vida das pessoas aqui e em qualquer conversa informal é fácil perceber que, mesmo após 5 anos do fim da guerra (comemorados no dia 18 de maio), as pessoas ainda se lembram com muito pesar de tudo o que aconteceu.

Com o decorrer dos anos muitas foram as tentativas de acordos de paz e cessar-fogo, entretanto sem sucesso algum, e ambos os lados trocavam acusações de transgressões aos pactos de guerra e aos direitos humanos. Ainda terei a oportunidade de visitar a região ao que foi o centro do conflito e escreverei como está vida das pessoas 5 anos após o fim dos conflitos, bem como um panorama melhor do que foi esse guerra e de que maneira ele marcou a história por aqui.

Atualmente o Sri Lanka vive um período de paz e prosperidade. A economia dá sinais de ressurgimento depois de anos de conflito intenso e o turismo é uma grande alavanca para essa melhora. Também pudera, com toda essa diversidade cultural, lugares históricos muito bem preservados, praias paradisíacas ao sul e leste pra todos os gostos, desde as mais calmas quase isoladas e sem ondas até as agitadas, gastronomia exótica, natureza exuberante, ecoturismo e turismo de aventura muito bem explorados, com esportes radicais pra ninguém botar defeito, muitos hotéis estão se estabelecendo por aqui. Basta apenas dar uma caminhada pela capital, Colombo, que você percebe essa pujança do turismo.

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Memorial da Independência, Colombo.

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Vista geral da parte hoteleira e do porto de Colombo.

Por outro lado, esse crescimento todo está baseado num populismo de governo, no qual o presidente, Mahinda Rajapaksa, que possui um elevado capital político por ter “acabado com a guerra”, controla com mãos de ferro e grande ideologia as camadas mais populares. Uma alteração na constituição foi feita em 2013 para que o cargo de presidente possua indeterminadas reeleições, favorecendo, de maneira clara, o atual presidente. Existem mais de 100 ministérios e em muitos deles o “pai da nação” (ouvi algumas pessoas assim o chamarem em uma viagem que fiz ao sul da ilha) emprega seus parentes próximos. Seis ministérios estão nas mãos de seus irmãos, sendo que o irmão mais velho é ministro da defesa; o irmão mais novo acumula não menos do que cinco pastas; um irmão é governador e outro é presidente do congresso. Até o poder judiciário possui membros da família e amigos “pessoais” da família presidencial. Vocês poderiam me perguntar de que forma obtive essas informações e a resposta clara seria através da mídia. Contudo, esta também é controlada pelo presidente. O Estado possui os três principais canais de televisão e alguns veículos impressos. Ou seja: a ilha é um grande negócio de família. Vale acrescentar que o presidente e seu governo estão sendo fortemente investigados pelas Nações Unidas, sob a suspeita de genocídio e crimes de guerra. Está é a República Socialista Democrática do Sri Lanka (e eu como cientista social me pergunto de que forma conseguem colocar na mesma frase “Democrática” e “Socialista”, mas isso fica pra um próximo texto).

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Por esses lados existem três línguas oficiais: o Cingalês, o Tâmil e o Inglês, nesta ordem de importância. Cada uma das línguas respeita um alfabeto próprio, com sinais e significados distintos uns dos outros. O único ponto em comum são as expressões numéricas: todas utilizam o bom e velho (não tão velho quanto bom) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 0. Por aqui, a grande maioria das placas, outdoors, jornais e demais comunicações visuais respeitam essas três línguas. Contudo, na ausência de espaço (ou de interesse), o Cingalês prevalece; logo em seguida o Tâmil e por último o inglês. Uma simples atitude, por exemplo, de desejar “Bom dia” ao acordar, ou pedir “Com Licença” ou mesmo pegar um ônibus tornou-se uma “odisseia gestual”, muitas vezes forçando a me recolher no interior do meu silêncio. Assistir televisão, então, é uma tarefa árdua.

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As quatro grandes correntes religiosas estão presentes no Sri Lanka e de maneira profunda e intensa, todavia não igualmente distribuída pelo território. Budismo, Hinduísmo, Islamismo e Catolicismo dividem fieis e coexistem na ilha, tolerando-se mutuamente. Sem sombra de dúvida, a grande maioria da população (dados oficiais apontam cerca de 70%) pertence ao Budismo e, desta forma, os feriados todos seguem o calendário desta religião. Todos os meses, quando chega o período da lua cheia, é o feriado conhecido como “Full Moon Day”. Já tivemos também o ano novo (que é celebrado numa data diferente), o dia do Nascimento e da Ascensão ao estado de Nirvana do Buda, e muitos outros.

A religiosidade é um traço marcante na vida cotidiana do Sri Lanka. Impossível é caminhar pelas ruas de qualquer cidade e não se deparar com monges e suas tradicionais vestes amarelas, laranjas e vermelhas; muçulmanos e seus chapéus brancos, barbas alaranjadas e mulheres cobertas pela tradicional “burca”; hinduísta com suas roupas coloridas e seu “terceiro olho”. A prática religiosa tem um grande espaço na vida dos Sri Lankeses, espaço esse muito maior do que o que as pessoas dedicam em meu país. Por todas as cidades existem estátuas de Buda, Santos Católicos, templos Hindus com seus muitos deuses e Mesquitas, coexistindo. Tenho a impressão de que quanto mais se exterioriza a fé, mais o indivíduo se identifica com a sua profissão religiosa. Antes de ser “Sri Lankes” a pessoa logo fala: “Sou Católico/Budista/Hindu/Muçulmano”.

 

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Posteriormente, escreverei mais sobre como é a vida neste lugar com tanta diversidade cultural, abordando temas como vestuário, comidas, natureza e sociedade. É muito coisa e nesses quase 4 meses já aprendi tanto que seria difícil esgotar em apenas um texto a riqueza deste lugar. Esta é um pouco da história do encantador Sri Lanka, cheio de riquezas prontas para serem descobertas. Para encontrá-las, basta apenas abrir os olhos!

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