Sri Lanka

Memórias de um doce amargo

O povo do Sri Lanka (ou pelo menos as pessoas que até agora convivi) é muito acolhedor e está sempre disposto a ajudar um “Suda” (“Branco” em cingalês e apelido recebido pelas crianças). Essa é a forma como sou facilmente reconhecido por “destoar” em qualquer espaço público que me encontro. Uma dos primeiros que me foi simpático e abriu as portas de sua casa foi o irmão do Irmão (com toda a alegria que o trocadilho anterior pode oferecer) que mora comigo. Fui muito bem recebido na casa do Padre Milroy.

Este padre desenvolve o trabalho de vigário-geral na diocese de Kandy, cidade localizada no centro do Sri Lanka e me convidou, de forma muito educada e solícita, para passar uma semana em sua companhia conhecendo o trabalho de um escritório de direitos humanos e proteção da criança e do adolescente lá. Após ter menos de 15 minutos para preparar minha bagagem, lá estava eu dentro de seu jeep Toyota branco da década de 70 cortando o país, sacolejando junto com meu almoço mal mastigado em meu estomago. Como todas as viagens por aqui, essa não foi menos demorada. Levamos cerca de sete horas para percorrer 250km. Contudo, pelo caminho pude notar grande diferença na paisagem. As planícies litorâneas, típicas dos locais em que já havia estado, foram dando espaço para montanhas e vales, que muito me lembraram minha infância nas “serras azuis” do sul de Minas.

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Parada estratégica no caminho para Kandy na casa de um familiar do Padre Milroy para mais um chá

Kandy parece estar em outro país. Encravada no meio de cadeias de montanhas no centro da ilha, possui um clima ameno durante o dia e – por incrível que pareça – frio durante a noite. Mal pude acreditar que meses após apenas usar shorts e camisetas de algodão, enfim, relembraria como era a sensação aconchegante de se cobrir durante a noite. Essa cidade, com cerca de 500 mil habitantes, foi o último reino budista conquistado e mantêm, desde a primeira metade do século XIX, por conta de ter sido escolhida como a primeira capital, traços europeus em sua arquitetura, típicos das colonizações inglesas: prédios com grandes janelas, pé direito alto, ruas largas, iluminação pública característica, largas praças e lagos.

Lá se encontra uma grande e importante universidade, pela qual passava todos os dias e pude presenciar grupos de alunos indo e vindo das aulas. Possui, também, o único jardim botânico do Sri Lanka, que busca preservar tanto espécies nativas como aquelas trazidas há quase 200 anos pelos colonizadores.

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Jardim Botânico Kandy
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Jardim Botânico Kandy

 

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Jardim Botânico Kandy
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Ruas de Kandy
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Ruas de Kandy
É possível alugar um pequeno barco para um passeio em um dos lagos da cidade
É possível alugar um pequeno barco para um passeio em um dos lagos da cidade

Contudo, apesar de todo o acima citado, ela não é lembrada no restante do país por nada disso, mas sim por ser a guardiã de uma das principais relíquias para o Budismo. Acredita-se que ao atingir o estado de Nirvana, após muito tempo de meditação, o Buda “trocou” o plano terrestre pela vida energética perfeita. Porém, deixou na terra quatro dentes e um desses dentes encontra-se em um grande templo próximo ao lago no centro da cidade. Parcialmente destruído 10 anos atrás por um ataque terrorista, esse templo, agora totalmente refeito, é passagem obrigatória para todos aqueles que visitam o país e buscam entender um pouco mais sobre sua cultura e sociedade. Fui guiado dentro do templo por um senhor chamado Demisha que se ofereceu para ser meu guia tão logo me viu “perdido” na entrada do prédio. Em suas palavras: “É fácil perceber quem é de longe! Prazer! Por 1000 rúpias posso te guiar por todos os lugares deste templo, até aqueles pouco conhecidos, e te contar histórias de gerações que viveram neste lugar. Pode confiar, nenhum outro guia sabe o que eu sei!”.

Após essa propaganda toda, surpreso pela eloquência, prepotência e simpatia deste homem, achei que valeria o investimento. Passamos três incríveis horas andando pelo prédio desvendando seus corredores, histórias e mistérios. Ao final, pude ver o dente. Na verdade era uma urna que estava fechada por outras três urnas e diziam que lá dentro estava o dente, num grande salão onde milhares de pessoas se espremiam para poder enxergá-lo em umas das três exposições diárias. No fim do passeio, sentamos na beira do lago e dividimos um chá, conversando sobre política, religião e, é claro, futebol. De fato aquelas 1000 rúpias valeram muito a pena!

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Vista Geral do “Templo do Dente”, na cidade de Kandy
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Entrada do prédio, totalmente reconstruído depois de um ataque terrorista

 

 

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O dente!
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Um dos muitos salões dentro do templo

 

 

 

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Meu amigo/guia Damisha

Minha permanência em Kandy tinha um objetivo específico: conhecer a realidade do escritório de proteção e defesa dos direitos humanos chamado SETIK (Social and Economic Training Instituto of Kandy), mantido pela Cáritas naquela cidade e colaborar no que fosse preciso e necessário. Em meu primeiro dia fui recebido pelo diretor do escritório, Padre Cammilus, que logo tratou de me passar cordial e muito elucidativamente um panorama geral do trabalho por ele e sua equipe desenvolvido. Desde 1995 ligados à “Ásia Humans Rights Comission”, com sede em Hong Kong, este ano estão comemorando 50 anos de atuação aqui no Sri Lanka com desafios que nos remetem, incrédulos, há séculos atrás.

Segundo o exposto naquela manhã, cerca de 180 anos atrás, mediante a recusa dos Cingaleses (maior etnia do país) em trabalhar nas Reais Plantações de Chá britânicas, o povo Tamil foi “importado” do sul da Índia para poder desenvolver seu cultivo. Naquele momento já havia Tamils no país. Contudo, sem se preocupar com as tensões já existentes entre os dois grupos, essa politica de migração em curso fez seu número se elevar exponencialmente, em especial nas províncias do norte, centro e leste do país. Viviam uma triste realidade de exploração, em um regime de semiescravidão muito semelhante ao observado nas grandes lavouras de café brasileiras no início do século passado.

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Ao final do período de colonização, com a saída dos ingleses, empresas privadas (em sua grande maioria indianas) tomaram conta das plantações e, sem nenhum tipo de norma que regulamentasse os direitos dos trabalhadores, suas condições continuaram as mesmas, sem contar as demais violações de direitos e preconceitos que sofrem devido à guerra civil entre as duas etnias. Por mim indagado, Camimlus me disse que são dois os principais problemas enfrentados pelos agentes do escritório: trabalho infantil e exploração sexual de mulheres trabalhadoras, sem, contudo, deixar de lado a falta de serviços básicos como educação e saúde não oferecidos nem pelo governo nem pelos empregadores nas regiões das plantações.

Apesar de uma organização da Igreja Católica, possui em seu corpo de funcionários pessoas das quatro religiões e das duas etnias, num louvável esforço de mostrar, desta forma, em suas próprias palavras, “sua preocupação com o ser humano por trás da cultura que, independente de qual seja, possui necessidades básicas inerentes à sua condição humana”. Isso foi uma das primeiras coisas que me chamou atenção assim que cheguei ao escritório, observando seu símbolo, que contém os principais aspectos das quatro religiões.

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Cammilus conta com um “staff” de cerca de 50 pessoas que tem por responsabilidade cobrir uma área muito grande, aquém de suas capacidades. Seu maior desejo é poder contar com mais funcionários para garantir mais atendimentos e visitas. Durante aquela semana pude conhecer todos os departamentos e colaborar com alguns atendimentos. Para saber mais, acesse: http://www.setikkandy.com

Foi uma semana muito interessante de trabalho onde pude, pela primeira vez, ter contato com essa realidade. Ao ouvir essas histórias e muitas outras, comecei a traçar, inconscientemente, um paralelo com a minha realidade e com o meu país. Não importa onde esteja, inadmissível é que em pleno 2014 pessoas sejam obrigadas a explorar seus filhos sexualmente em troca de pão; se vejam pressionadas a aceitar condições degradantes de trabalho em vista do lucro de poucos; sejam subordinadas à rotinas de trabalho estafantes de mais de 15h diárias. A maior lição deste período de trabalho foi ouvir do diretor que devemos sempre olhar para o ser humano por trás das “máscaras” alegóricas que a cultura, religião e língua apresentam. Foi uma grande aula “empírica” de Direitos Humanos. A partir de então me questionei: quantas guerras, desavenças e disputas não teriam sido evitadas e, desta forma, quantas vidas seriam não apenas preservadas, mas também melhoradas, se os líderes políticos e sociais ao longo da história não tivessem dentro de si um pouco do Padre Cammilus? Nem todos em Kandy tem uma vida tão doce como o seu nome faz referência.

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O incansável Padre Cammilus
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Parte do pessoal do escritório, após a reunião semanal

A casa em que estava hospedado ficava fora dos limites urbanos da cidade. Todas as manhãs, com muita calma e presenteados por uma brisa gelada, eu e o padre Milroy tomávamos café da manhã juntos frente a uma bela vista das montanhas e cada um desses momentos era uma oportunidade única de ouvir histórias e mais histórias de um homem marcado pela solidão, mas também com um coração imenso. Para ter mais tempo de ouvi-lo, combinamos que durante aquela semana acordaríamos uma hora antes.

Todas as tardes eu chegava mais cedo de volta do trabalho e saia andando pelas montanhas, para conhecer o lugar, respirar o ar puro e, sobretudo, matar a saudade de sentir frio (rs!). Em uma dessas andanças, olhei um pico logo a esquerda da janela do meu quarto e me desafiei a chegar até lá, imaginando a linda vista que de lá teria. No meio do caminho, porém, fui surpreendido por um agradável sorriso de um monge budista. Todo trajado de laranja, ele estava indo na mesma direção que a minha e, de uma forma inesperada, me questionou onde eu estava indo. Disse que queria chegar até o ponto avistado de minha janela e ele confirmou minhas suspeitas: lá era o ponto mais alto da cidade, com uma vista singular da região. Nos despedimos com um cumprimento simples e ele me disse: aprecie a beleza da natureza e coloque ela dentro do seu coração!

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Vista geral da sacada da casa do Padre Milroy

Ele ficou pelo meio do caminho e eu continuei, sem sucesso por causa da chuva, minha caminhada. Porém, ele deixou em mim uma estranha sensação de incompletude. No dia seguinte, voltei pelo mesmo caminho, mas, ao invés de seguir direto ao pico, virei onde no dia anterior havíamos nos despedido, à sua procura. Encontrei-o lavando, em uma “mini cachoeira” seus utensílios de cozinha e, ao me avistar, deu um alegre sorriso e me cumprimentou. Perguntei-lhe o que estava fazendo ali e ele disse que onde ele morava não havia água encanada, então ali ele tomava banho e lavava seus objetos e roupas. Logo em seguida, fui surpreendido por um convite para um chá e, é claro, sem titubear, aceitei.

Este simpático monge (do qual minha falível memória não me deixa recordar o nome) cuida sozinho de um pequeno templo no alto da maior montanha de Kandy e vive uma vida de total abnegação aos bens materiais, meditando cerca de 12h e fazendo uma refeição diária. Por mim questionado quais os “ganhos” de uma vida assim, ele me disse que a partir do momento que nos libertamos de nossa necessidade material, seja ela qual for, Deus encontra espaço para que sejamos mais felizes.

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Local onde o encontrei lavando seus objetos
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Caminho até sua casa

Repeti o caminho nos três dias seguintes, sem hesitar seus convites para chás (na verdade era essa a minha intenção). Parecíamos duas crianças abobadas em seu primeiro dia de aula conversando um com o outro. Estávamos tão próximos, mas parecíamos viver em planetas diferentes. Tudo o que eu falava parecia uma novidade monstruosa e tudo o que ele me contava encontrava o mesmo tratamento e sentimento dentro de mim. Fui cativado pela modéstia daquele homem e, tendo em vista os chocolates que me esperavam em cima da mesa a partir do segundo dia, alguma coisa em mim também o agradou.

No último dia, ao comunicar-lhe que no dia seguinte não voltaria porque iria voltar para minha cidade, fui surpreendido não por uma tristeza (o que seria a reação natural que eu imaginara e já sentia). Ele deu um sorriso mais largo ainda e disse: “Que bom que nossos caminhos se cruzaram! Fico feliz de poder dizer que tenho um amigo brasileiro!”. Logo em seguida me convidou para segui-lo. Parecia querer me mostrar uma coisa.

Andamos uns 20 minutos montanha acima e, para minha surpresa, ele me levou, por um outro caminho mais suave, direto ao pico que estava buscando no dia em que nos encontramos. Um lugar muito bonito onde ele havia construído pequenos bancos para os visitantes sentarem e meditarem. De lá, parecia que dando um pulo poderia tocar o céu. Meu amigo monge, nesse momento, fez o único pedido de todos os dias em que nos encontramos: “Podemos tirar uma foto?”. Após registrar aquele momento ele me disse: “Não se esqueça que as maiores recordações não são aquelas que vocês, ocidentais, insistem em guardar dentro dessas câmeras, mas sim aquelas que levamos no coração!”. Um conselho simples, vindo de um homem mais simples ainda, mas de uma grande profundidade.

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“Podemos tirar uma foto?”
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“Não se esqueça que as maiores recordações não são aquelas que vocês, ocidentais, insistem em guardar dentro dessas câmeras, mas sim aquelas que levamos no coração!”

No dia seguinte, dentro do ônibus cortando as montanhas em direção à Kalpitiya, pude, ao longe observar o pico que havia estado no dia anterior, colocar em prática o último ensinamento daquele meu amigo. Busquei olhar pro meu “cartão de memória interno” e ver o que, de fato, Kandy havia deixado de memória. Naquele momento, vieram as imagens das lindas montanhas, os rostos das pessoas que por mim passaram no escritório e suas histórias de sofrimento e luta, a dedicação incansável aos mais necessitados do padre Cammilus, a alegria depressiva – mas não menos verdadeira – do meu anfitrião padre Milroy e, sobretudo, o sorriso daquele monge.

É no coração que a vida faz impressões verdadeiras! Meu amigo monge tinha razão!

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2 thoughts on “Memórias de um doce amargo”

  1. Memórias dentro do coração… simplicidade sabia… é por isso que olho para o céu quando aparece a lua cheia… em vários momentos lembro do pão sagrado de Deus, remetendo a um passado de “serras azuis” onde esse clarão iluminava a estrada sem “faróis veiculares”… lembra ? Viva meu filho, abasteça seu coração com tudo que é de mais sagrado… beijos e saudades…

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  2. Muito legal essa experiência que você está vivendo. Ninguém pode imaginar o real significado de cada uma de suas aventuras, mas tenha certeza que, na medida do possível, estamos sempre torcendo para que cada uma dessas seja um aprendizado.
    Um grande abraço e continue escrevendo..

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