Sri Lanka

A Lágrima do Índico – Parte II

Apelando para a boa memória do leitor, tente lembrar daquelas aulas de história que você teve logo na 2ª ou 3ª série. Você consegue recordar-se do motivo que levou portugueses e outras nações a se lançarem ao mar, descobrindo, assim, novos territórios, como as Américas e a África? Lembra-se das tais das “especiarias” que iam buscar na Índia e que eram um negócio tão lucrativo que valia a pena o risco de enfrentar meses rumando em oceanos desconhecidos? Pois bem, elas, de fato existem! E são muito utilizadas por aqui.

Antes de vir para cá, há quase seis meses atrás, em uma rápida pesquisa na internet em alguns sites de viagens, pude notar que uma das dificuldades enfrentadas pelos viajantes que por aqui passavam (aqui me referindo à Ásia como um todo) era a questão da alimentação. E por mais preparado que eu estivesse fisicamente, os costumes alimentares dessa cultura seriam estranhos ao meu estômago. Essa foi uma das primeiras barreiras que tive que driblar para poder viver por aqui.

Pra começo de conversa, ao sentar-me para minha primeira refeição senti falta de duas coisas simplesmente essenciais. Ao olhar para a mesa disposta, encontrei pratos, um copo com uma garrafa de agua e os alimentos em travessas. Todavia, não encontrei talheres. Não quis causar estranheza e me sentei, observando os demais que ali estavam comigo, tentando descobrir onde estavam guardados as facas, garfos e colheres. Ingenuidade da minha parte. Mal sabia eu que eles não estavam guardados: Eles não existiam!!! Aqui as pessoas usam as próprias mãos para comer e as unhas servem para cortar os alimentos. Confesso que após esse tempo que estou aqui acabei “naturalizando” esse costume e agora não me causa mais espanto. Contudo, nos primeiros dias, achava muito estranho a forma como se alimentavam. E por incrível que pareça, as pessoas tem uma destreza com os dedos fantástica. Eles fazem pequenos bolinhos, amassando e apertando a comida no prato para, em seguida, colocar pra dentro da boca. Até as mães alimentam seus filhos pequenos dessa forma. Tenho que reconhecer: hoje dou muito mais razão ao esforço incansável de minha mãe, quando eu era criança, todos os dias insistindo para o pequeno e teimoso Gabriel: “lave as mãos antes de vir para a mesa”. Esse hábito agora faz muito mais sentido.

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Por aqui se come muito peixe e arroz. Repito: muito peixe e arroz! Esses são os dois itens básicos da dieta Sri Lankesa. Acrescentaria, ademais, o “Chá nosso de cada dia”, dividido em quantas porções diárias forem necessárias. Outros itens também são muito comuns, tais como: batatas, ovos, lentilha, bananas e cenoura. Existe pouca carne, seja ela de boi ou de frango e, para desespero geral deste que vos escreve, o feijão é item de luxo que, com dificuldade, encontrei-o na forma enlatada. O arroz, sendo assim, é “menos arroz”, desce mais seco sem seu fiel escudeiro (arroz esse preparado apenas com água). Falando nisso, o modo de preparo é mais ou menos igual para tudo. Devido à ausência de forno, já que a grande maioria das famílias cozinha com fogão à lenha, quando muito aqueles fogareiros típicos de acampamento, 95% dos alimentos é frito, até mesmo verduras e legumes.

No Brasil, estamos acostumados (pelo menos eu na minha rotina cotidiana básica) a nos alimentarmos utilizando temperos como: sal, cebola, alho, azeite, orégano. Tudo muito suave e, em alguns casos, despercebido. A culinária asiática e, em especial, Sri Lankesa, lança mão de muitos outros temperos, alguns dos quais não existe sequer tradução para o português: Cardadomo, Cominho, Coentro, Pimenta (ou melhor, MUITA pimenta), Fenacho, Açafrão, Canela, Mostarda e Coco, entre outros que não encontrei sua definição em português. Em alguns alimentos é comum a mistura de 4 a 5 temperos diferentes. Isso faz com que sua coloração fique mais forte e, sobretudo, o gosto e aroma bem marcantes. Mesmo após um longo período por aqui, confesso que ainda é difícil me habituar com esses gostos.

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Peixes vendidos na beira da praia. Mais fresco, impossível!
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Almoço de Páscoa
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Tenda de verduras e legumes em Galle

Por esses lados tudo é muito colorido, não apenas as comidas, mas também as roupas. Muito influenciada pelos padrões estéticos indianos, as roupas no Sri Lanka são muito coloridas e ornamentadas com pedras e detalhes que conferem mais cor e beleza. Mulheres usam o chamado “Sári”, que é praticamente um grande pano colorido enrolado no corpo. Eles são bem conhecidos ao redor do mundo e aqui são utilizados para tudo. Essas peças são extremamente comuns. Homens usam o “Sarong”, uma espécie de saia (mas não fale para nenhum Sri Lankes que é um tipo de saia que eles ficam bravos) masculina também muito colorida e que, para o meu desespero, não possui nada como zíper, botão ou cinto para segurar: dá-se apenas um laço, como quando enrolamos a toalha no corpo para sair do banho. Quando comprei o meu, para me sentir mais seguro, usei-o com um short por baixo. Infelizmente, as novas gerações, tanto meninos como meninas, têm abandonado essas roupas tradicionais e optando por vestes mais ocidentais, como nosso velho conhecido jeans.

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Devido sua localização geográfica, o clima do Sri Lanka apresenta poucas variações: temos calor, muito calor e MUITO calor. Excepcionando a região de montanhas no centro da ilha, que em alguns meses do ano chega a fazer um pouco de frio (me refiro a 15, 18 graus) por conta de sua altitude, o restante da ilha está sempre acima dos 25. Questionei algumas pessoas sobre as estações do ano e, para minha surpresa, eles não utilizam o por nós conhecido “Outono-Inverno-Primavera-Verão”. Para eles, estamos na época do ano dos ventos, da chuva ou da seca, todos devidamente acompanhados com muito calor.

As grandes cidades, como a capital Colombo, não diferem muito de um grande centro urbano ao redor do mundo. Muitas pessoas na rua, trânsito (não tão caótico como São Paulo, mas com suas peculiaridades), barulho e poluição. Os chamados “Tuc-tucs” são uma diferença por aqui. Pequenos veículos de três rodas, sempre muito coloridos, são, além de muito divertidos para alguém que vem de um país onde eles não existem, onipresentes na paisagem, esteja onde você estiver. Eles são uma mistura de carro e moto. Possuem um guidom para manejar a pequena roda dianteira, sua aceleração é feita com as mãos também e para frear pressiona-se uma pequena alavanca com o pé direito. Não possuem portas ou janelas. Eles são a opção mais rápida e barata para a locomoção, além, é claro, de muito divertida.

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Ponto de taxi em Kalpitiya

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Também para locomoção existem os ônibus, muito antigos, mas onde se encontra de tudo dentro e são extremamente baratos. Para longas viagens, como da capital para a cidade onde moro (cerca de 140km) esse é o meio de transporte usual. Apenas um detalhe: aqui se utiliza mão inglesa, motoristas do lado direito dos veículos e ruas invertidas. Isso me causou estranheza e, nos primeiros dias, fez com que uma simples tarefa de atravessar a rua se convertesse numa arriscada operação.

A natureza é um espetáculo a parte. O céu está sempre azul e existem muitas opções para quem decide conhecer a ilha através de suas belezas naturais, que variam desde praias (das mais calmas às mais agitadas), mergulhos em barreiras de corais, montanhas no centro da ilha com suas plantações de chá e até safaris em alguns dos parques nacionais.

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Em pé nos corais em algum lugar no meio do pacífico

Nestes parques, em especial, é possível observar de perto um dos símbolos nacionais e muito bem explorado pelo turismo: os elefantes.

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Madu, meu amigo de 3 toneladas!

Não são naturais daqui, afinal, estamos em uma ilha, mas esses animais povoam grande parte do território e são muito valorizados pela cultura local, principalmente pelos budistas. Dizem que, atualmente, existem cerca de 4000 exemplares dessa espécie, sendo que metade de propriedade do governo dentro dos parques, vivendo em habitat natural, sem qualquer intervenção humana. Para possuir um elefante, o Sri Lankes deve desembolsar uma quantia equivalente a mais ou menos duas casas médias, ter uma autorização especial de tratamento de animais selvagens (como aquelas dadas pelo IBAMA no Brasil) e também uma licença comprovando que consegue manejar o elefante (como se fosse uma carteira de motorista).

A despeito de existirem linhas de financiamento nos bancos estatais para quem deseja ter um, não é algo comum. Eu mesmo ainda não cruzei com nenhum pela rua (a não ser nas regiões mais turísticas onde esse é um dos passeios imperdíveis). Um lugar que não tive a oportunidade de visitar, mas que ficará para uma próxima viagem, é o conhecido Orfanato de Elefantes, onde pequenos bebes (“pequenos”, aham!!!) elefantes são tratados até chegarem a idade em que podem se virar sozinhos e soltos nos parques.

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Elefantes em habitat natural

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Tomando banho com elefante (detalhe: a bucha é feita de coco)

A influência da cultura indiana está presente em quase tudo, desde a comida (como já descrito) até os filmes, músicas e literatura. Afinal, o ponto mais ao norte do país dista apenas 24km do sul da Índia. Contudo, pude observar que a cultura ocidental, principalmente europeia, tem ganho bastante espaço, principalmente entre os jovens. Uma das coisas que me assustou foi quando descobri que existe um produto, como um creme hidratante, para que as mulheres embranqueçam a pele. De onde eu venho o padrão estético, sobretudo no verão, faz com que as mulheres tomem o caminho oposto, utilizando produtos para queimar um pouco mais a pele. Por aqui não!

A sociedade Sri Lankesa, como já exposto em outros relatos, é muito arraigada nas tradições religiosas e isso define desde o local onde as pessoas moram e as roupas que usam até que tipo de emprego os jovens escolherão. Sua identidade passa por sua identificação com a tradição religiosa. Isso é algo importante e levado tão a serio que dentro do próprio governo existe o Ministério das Religiões, com secretárias especificas para cada umas das tradições.

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Por aqui as formalidades no trato com as pessoas são muito fortes. Não é incomum algumas pessoas me chamarem de “Senhor”. As crianças possuem regras rígidas dentro das escolas que determinam até o corte de cabelo. O uniforme utilizado por elas é composto para meninos: calça branca, camisa branca por dentro de calça (e ai se estiver para fora!!!) e sapato preto; para meninas: vestido de prega branco abaixo do joelho e sapato branco. Infelizmente, castigos físicos ainda é uma prática recorrente nas escolas do país e todos os alunos devem bater continência para o diretor e beijar os pés dos professores e demais autoridades.

Após anos tendo essa formação, não seria de se espantar a elevada formalidade por mim observada. Contudo, a despeito desta característica, uma das coisas mais legais aqui é a simpatia de seu povo. Basta apenas um sorriso e um aceno para as formalidades caírem por terra. Muito curiosos e sempre sorridentes, esse é um traço característico do povo daqui. Fazem de tudo para puxar papo com você, mesmo que em Cingalês ou Tamil.

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Ao ligar a televisão, algo que me chamou atenção por aqui foram os comerciais. Mais curtos que as propagandas brasileiras e, desta forma, repetidos com mais frequência, eles apresentam basicamente três produtos: 50% são comerciais de cimento e a outra metade é dividida entre bancos e seguro de vida. Também pudera, nos últimos 10 anos o país foi atingido pelo maior desastre natural da história da humanidade (tsunami) e por uma guerra civil muito violenta. Não seria de se espantar que o que as pessoas procurassem fosse meios para reconstruir suas vidas e garantir um pouco mais de segurança às futuras gerações.

Existem muitas outras coisas típicas desta ilha que oscila entre tradições milenares e influência de outras culturas asiáticas e ocidentais. Contudo, a simpatia do povo é, destacado, o traço mais marcante desta sociedade que me acolheu há seis meses. É um país que, apesar do crescimento econômico do pós-guerra, caminha a passos lentos, guiados pela serenidade e calma de seu povo que larga tudo o que esta fazendo para uma xícara de chá.

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2 thoughts on “A Lágrima do Índico – Parte II”

  1. Que riqueza de visão você está construindo! Este universo que tem o privilégio de contemplar com olhos aguçados, num misto de sensibilidade e encanto, descoberta e busca, com certeza oportunizará lembranças muito além de sua câmera fotográfica. Belo texto continue… saudades e feliz e agradecida a Deus pela oportunidades que lhe oferece..Bj no coração – Tia Nane

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