Sri Lanka

No fogo cruzado: entre balas e esperança – Parte I

Num momento como este, em que muito está se discutindo sobre a guerra na palestina, sobre os conflitos internos (ou não tão internos assim!) na Ucrânia, senti a necessidade de partilhar aqui uma das experiências mais marcante e, como não dizer, apavorante que tive durante essa viagem. Sim, apavorante. Não encontrei outro argumento que combinasse mais com o que pretendo relatar. Tenho total certeza e já começo sabendo que quaisquer que forem minhas palavras, não conseguirão descrever a totalidade dos meus sentimentos. Contudo, me empenharei neste esforço, pois acredito que valerá a reflexão.

Ao chegar ao Sri Lanka descobri que o país, até 2009 viveu uma das piores guerras civis da Ásia, sobre a qual o Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas tem investigado possíveis crimes de guerra e violações de direitos humanos, travada entre as duas etnias principais do país: Cingaleses e Tamils. Não pretendo me debruçar sobre os motivos que levaram ao conflito, já explicitado de forma breve em outro texto (que pode ser acessado clicando aqui), mas saliento que essa é uma “ferida aberta” na vida do povo daqui, tanto devido ao pouco tempo que os combates acabaram como pelas táticas de terrorismo utilizadas pelos beligerantes.

Pois bem, os Cingaleses saíram vitoriosos do conflito e, a despeito de existirem em todo o território, os Tamils foram “confinados” ao norte, tendo a cidade de Jaffna como seu principal ponto de apoio, de maioria Hindu e muito influenciada pela Índia (que dista apenas 24km). É sobre minha visita a essa cidade e a toda a zona de conflito que pretendo escrever.

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Eu, Brother Ephrain e Brother Francis a caminho de Jaffna

Vale dizer que não escrevi antes por dois motivos. Primeiro: por estar profundamente impactando pelo por mim lá observado, decidi dar um tempo e esperar as memórias e sentimentos “tomarem assento” dentro de mim. Segundo (e principal motivo): porque certas situações, caso fossem descritas enquanto estivesse no Sri Lanka, poderiam me colocar em certos perigos, sem contar que meu celular e minha internet haviam sido grampeados pela inteligência do exército.

Minha viagem teve como origem a capital do Sri Lanka, que está a cerca de 250km de Jaffna. Passei pela mesma estrada diversas vezes e nunca fui parado. Contudo, ao longo dessa viagem, por se tratar de um ônibus que rumava à Jaffna, fomos parados três vezes por soldados do exercito que, de forma truculenta e intimidadora, adentravam no ônibus com metralhadoras em punho e escolhiam, aleatoriamente, quatro pessoas para descerem e serem revistadas por completo, não apenas seus bolsos, mas também suas malas e pertences pessoais. Em cada uma das paradas meu coração vinha na boca com receio de ser um dos escolhidos. Não tinha nada a temer, porque não estava fazendo nada de errado. Contudo, em uma zona de guerra, não dá pra contar nem com a lei, imagina com o bom senso.

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Por ser para Jaffna, fomos parados quase que o tempo todo

Orientado pelos irmãos que comigo viajavam, já havia decorado o discurso caso fosse um dos escolhidos, fato este que aconteceu na terceira parada. Não encontro adjetivos para descrever a tensão que senti quando um dos soldados apontou na minha direção: minhas pernas tremiam, eu suava frio e era possível sentir o sangue correndo por detrás dos meus olhos. Não consegui falar nenhuma palavra e, por sorte, ao ficar em pé, o soldado viu que estava vestido com a camisa da seleção brasileira. Faltava menos de uma semana para o início da Copa do Mundo e fui prontamente identificado como tal. Ele abriu um sorriso, arriscou umas palavrinhas em um português muito mal falado (tais como “Pelê” e “Ronaldino” – leia como está escrito) e me pediu para sentar. Sempre fui muito patriota, mas aquele foi o momento em que mais agradeci a Deus por ter me feito brasileiro.

Passado o medo, comecei a observar os rostos das demais pessoas que ali estavam comigo. Algumas olhavam para baixo, numa tentativa fútil de não serem escolhidas por não fitarem os soldados, outras ficavam curiosas por saber quem seria o escolhido. Porém, todas claramente demonstravam medo e o clima a cada parada dentro do ônibus era horrível.

Sobrevivi a oito intermináveis horas sacolejando entre incensos e músicas hindus e finalmente cheguei a Jaffna. Estava ansioso pela chegada, pois nunca havia estado em uma zona de conflito em toda a minha vida. Meus primeiros passos, todavia, foram extremamente impactantes. Ao chegar naquele lugar, tive a nítida impressão de uma cidade fantasma. (Ao final deste texto colocarei algumas fotos para ilustrar um pouco da realidade de Jaffna).

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A esmagadora maioria das casas era assim, com marcas de bala nas paredes e proteções de ferro nos portões.
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Ao andar pela cidade tentava imaginar como era durante as batalhas

Diferentemente do restante do país, havia poucas pessoas na rua, as casas – em sua esmagadora maioria – possuíam proteções de ferro (todas elas perfuradas por balas), algumas muros altos e por todos os lados era possível ver escombros e destruição causados pelos combates. Era um silêncio ensurdecedor. Os pássaros cantavam mais tristes, o vento soprava mais forte, o olhar das pessoas era mais abatido e profundamente desconfiado.

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Nas ruas centrais, durante o dia (assim que o sol se punha havia “toque de recolher” imposto pelo exército e todos deviam ir para suas casas), era possível encontrar um pouco mais de movimento, não apenas de pessoas (vaca é o animal sagrado para os Hindus, maioria na região, e é comum encontrá-las soltas nas ruas).

Atualmente o governo do Sri Lanka diz estar investindo pesado na região, numa tentativa de levar um pouco de cidadania para aquelas pessoas, bem como, ao oferecer serviços públicos, ficar a bandeira do Estado, evitando assim que novos focos de revolução surjam. Muitas novas ruas estão sendo feitas e as antigas recapeadas. O asfalto é novo pela cidade inteira. Numa atitude grotesca (para não dizer patética), assim como no restante do país, na maioria das ruas é possível encontrar uma foto do presidente em postura imponente e imperial, como o “salvador da nação”. Isso pode até funcionar em ouras regiões do país, mas ali não. Soa até ridículo frente aos horrores relatados pelas pessoas e pelo ainda existente preconceito contra os Tamils (velado ou não e, muitas vezes, estrutural).

O grande hospital que o governo construiu recentemente em Jaffna, por exemplo, possui médicos e enfermeiros. Mas não possui uma máquina de raio X nem mesmo remédios básicos como antibióticos. Caso quebre um braco, a pessoa Tamil tem que se deslocar 4h30 para fazer o exame necessário. Um jovem Tamil que deseja ir para a universidade tem que ter uma nota muito acima daquela exigida para os demais jovens do país, sob a justificativa que o ensino no norte foi muito fraco durante anos por conta da guerra, então eles tem que prezar pela qualidade das universidades. E assim vai os muitos desrespeitos e preconceitos.

Fotos do presidente, o "salvador na nação"
Fotos do presidente, o “salvador na nação”
Placa de explicação de uma das muitas obras que o governo central tem feito em Jaffna
Placa de explicação de uma das muitas obras que o governo central tem feito em Jaffna

É claro que não devemos ser inocentes e isentar de qualquer responsabilidade pelo conflito o exército Tamil. Em uma guerra, ninguém é inocente. Contudo, após o seu final, esperava-se uma melhoria nas condições de vida e um gradativo e palpável desenvolvimento dos civis que nada tem a ver com a guerra, ancoradas no respeito mútuo e na cidadania plena (Ok, ok, apenas eu e Platão, dentro de nossas cavernas, acreditamos no mundo ideal do dever ser! Já entendi!).

Não existem mais batalhas nem mortes naquele lugar. Contudo, seria hipocrisia demais acreditar que o ódio que gerou a guerra e o preconceito de ambos os lados acabassem com o fim dos tiros, tão pouco com o sofrimento daqueles que vivenciaram o período da guerra.

Durante os quatro últimos anos da guerra, a cidade foi palco das principais batalhas entre os exércitos do governo (cingaleses) e o exercito autointitulado “Tigers” (tamils). Jaffna, naquele momento, possuía cerca de 600 mil habitantes (uma cidade enorme para os padrões Sri Lankeses, do tamanho de Londrina-PR) e, com medo dos conflitos, mais da metade dessas pessoas fugiu para campos de refugiados, para casa de parentes ou mesmo para as florestas próximas. Aqueles que não puderam ou não conseguiram sair tiveram que se proteger como era possível.

Durante o tempo que ali estive morei com dois irmãos (Brother Francis e Brother Ephrain) que trabalham na escola da diocese. É uma escola com quatro mil alunos e, nos anos finais da guerra, serviu de casa para mais de quatro mil pessoas, que, com medo de saques, dos tiros intermináveis das batalhas ou mesmo de bombardeios (sendo que muitos caiam em áreas civis), ali se abrigavam como podiam. Os irmãos também foram obrigados a morar ali. Por dois anos ninguém podia sair da escola e eles me relataram as condições precárias de vida durante esse período. Nas palavras do Br. Francis: “a gente é ser humano e acaba se adaptando, por pior que seja a situação. O ruim mesmo era de noite não conseguir descansar por causa das rajadas de fuzil. Eu morria de medo”.

Após as manhas na escola com os alunos, durante as tardes eu pegava emprestado uma bicicleta e saía andando pela cidade. Minha curiosidade era muito grande e aquele ambiente de “guerra em brasa” muito me instigava. Cada dia rumava pra um lado diferente da cidade e, em todos os passeios, as cenas se repetiam: casas destruídas ou com muitas marcas de bala nas paredes, bairros inteiros desaparecidos por bombardeios equivocados, muito lixo e escombros nas ruas, soldados fazendo guarda por todo o lado – a pé, de bicicleta, de moto e de jipe -, muito silêncio e pessoas acuadas. Após cada passeio desses voltava pra casa sentindo que minhas energias tinham sido sugadas pela realidade triste daquele lugar.

Contudo, minha curiosidade me levou até essa casa:

Entrada da casa, onde parei para tomar um chá
Entrada da casa, onde parei para tomar um chá
Visita ao interior da casa
Visita ao interior da casa

Parei em frente a casa deste casal para fazer algumas imagens e, ao terminar o vídeo, me convidaram para entrar. Fiquei surpreso com o convite, mas não hesitei. Ao entrar naquela casa, pude ver a destruição tanto física como emocional que a guerra deixou naquela família. Mostraram-me todos os cômodos totalmente destruídos e queimados. Atualmente o casal mora em apenas dois cômodos, que dividem entre sala, cozinha, quarto e banheiro, pois os demais correm o risco de cair por conta dos abalos estruturais sofridos com os tiros e bombardeios.

Este casal – que a minha falha memória não me deixa lembrar o nome – tenta preservar a história da família ao permanecer naquele lugar. Após uma visita ao interior da casa, sentamos na sacada e começaram a me contar sua história, que muito se misturava à da cidade e da guerra.

Me contaram que Jaffna passou por um período de grande crescimento econômico na primeira metade do século XX, impulsionada, principalmente pela proximidade com a Índia, e, enquanto o restante do Sri Lanka parecia estar no período de colônia, ali já se podia encontrar realidades urbanas e econômicas bem mais desenvolvidas. Isso foi um tempero a mais dentro do conflito e a proteção de Jaffna era muito simbólica para os Tamils durante o conflito (e, em contrapartida, sua conquista era essencial para os Cingaleses).

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Varanda onde foi servido o chá

Aquela casa havia pertencido a muitas gerações de sua família. Os primeiros que moravam nela foram os pioneiros da família que imigraram para a ilha, vindos da Índia. Ela foi uma das poucas que permaneceu em pé das muitas construções históricas daquele lugar. Eles me contaram que quando os combates se intensificaram, seus dois filhos se alistaram no exército Tamil, querendo proteger sua família, seu povo e sua terra. Os pais foram contra, mas uma noite os dois filhos sumiram e foram para a batalha. Essa era uma realidade comum naquele período (como em qualquer outra guerra), na qual muitos jovens se sentiam instigados a lutarem por não verem outra saída para melhoria de suas vidas e de seus familiares.

Com lagrimas nos olhos ouvi a triste resposta para minha pergunta: “E hoje, onde estão os seus filhos?”. Me disseram que a última notícia que tiveram era que estavam lutando em uma batalha em Mullaitivu (local onde ocorreram as últimas batalhas, distante 2h30 da cidade) e que, depois disso, nunca mais tiveram notícias dos filhos. Não sabem se estão vivos, se estão mortos, onde foram colocados seus corpos, se estão presos. Procuram informações mas o governo se nega a ajudar qualquer um, sob o argumento de “segurança nacional”.

Para terminar, questionei porque eles ainda moram ali. Disse-me o homem que, após a guerra, sem emprego, com a cidade toda destruída, eles não tinham pra onde ir. Ou moravam nas tendas de refugiados oferecidas pela ONU (e ao redor da cidade ainda existem muitas pessoas morando nessas condições), ou voltavam para aquele lugar, todo destruído, mas que era deles. A mulher, me servindo uma última xícara de chá, me respondeu: “A gente não sai daqui porque se os nossos filhos estiverem vivos, eles vão voltar pra cá. Se a gente sai daqui, perdemos eles de vez”. Aquela foi a xícara de chá mais amarga que já tomei. (a foto deste casal em frente à sua casa entrou no “Top 20 Sri Lanka” de melhores fotos, não apenas pela qualidade da fotografia mas por toda a história de vida).

Simpático casal Tamil em Jaffna
Simpático casal Tamil em Jaffna

Ainda há muito que contar sobre os dias que passei em Jaffna e, sobretudo, sobre os sentimentos que aquele lugar despertou em mim. Logo virão outros textos (agora que estou fora do país me sinto mais seguro para escrever), com outras histórias sobre esse lugar que, apesar da atmosfera sofrida e cruel, foi um dos mais bonitos que estive no Sri Lanka, não apenas pelas belezas naturais, mas, também, pelas histórias do povo Tamil, pelas cores vibrantes das roupas das pessoas e pelos olhares, profundos, tristes, calados, mas que carregam um fundo de esperança.

Numa guerra não existem vencedores. Existe aquele que perde mais e aquele que perde menos. Contudo, afirmo com toda a certeza que os que sofrem mais são os civis que nada tem a ver com os jogos de interesses políticos e econômicos por de trás dos conflitos. A guerra não acabou para muitas pessoas, mesmo que nenhuma bala mais tenha sido disparada nos últimos cinco anos.

Quisera eu viver a vida com a esperança incansável deste casal Tamil!

Algumas fotos:

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Pescadores perto do forte e o jipe do exército ao fundo
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Brother Francis (único irmão Marista Tamil) e seus alunos
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Tenda doada pelo Comissariado das Nações Unidas para Refugiados
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Alguns dos meus alunos na época da Copa do Mundo
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Vista do caminho para o oceano
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Crianças brincando nos escombros da guerra
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Finais de tarde: bicicleta, água e pedal pra conhecer a cidade e as pessoas
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Apesar de tudo, não deixam de ser crianças
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Patrulha do exército do governo. Para cada 5 pessoas em Jaffna, 1 soldado
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Indo visitar um templo Hindu que é considerado o ponto mais ao norte do Sri Lanka
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Entrando no templo Hindu

 

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