Tailândia

De volta para o futuro

O Sri Lanka ficou para trás. Confesso que entrei no avião com lágrimas nos olhos por todas as boas lembranças que adquiri naquele lugar que, durante seis meses, me acolheu e me ensinou lições que levarei por toda a vida (e continuarei a dividir aqui). Por conta de alguns problemas burocráticos de visto, tive que abreviar em 50 dias minha estada neste país. Fui obrigado, sendo assim, a fazer um pequeno contorno e me desviar para a Tailândia.

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Foi mais ou menos assim que me senti ao chegar por aqui!

Ter trocado de lado do mundo de forma “diagonal”, vindo para o norte e para o oriente, me fez perceber a grandeza do planeta que habitamos. A Ásia, local no qual estou há quase oito meses, é o maior entre todos os continentes e apresenta uma riqueza cultural monstruosa. Existem muitas “Ásias”: aquela árabe, de longas barbas, turbantes e burcas; aquela colorida, de peles amarronzadas, com incensos e terceiros olhos; aquela fria, gelada e regada a bastante vodca e romancistas suicidas; aquela de olhos semi-puxados, muitos ditadores, golpes de estado, arroz e paisagens deslumbrantes; aquela com olhos mais puxados ainda, muita tecnologia e pokemons (sim, eles ainda fazem muito sucesso!).

Eu, que venho de um lado do mundo um pouco mais “homogêneo”, me espantei com a grandeza e a diversidade cultural encontrada neste continente, expressa pelas muitas línguas aqui faladas (apenas na Índia há relatos de mais de 2000), roupas, comidas e, sobretudo, modos de viver e se relacionar em sociedade.

Vista da chegada à Tailândia
Vista da chegada à Tailândia

Pois bem, vir para Tailândia era um novo desafio ou, como diz Paulo Moska, “Tudo novo de novo”. Todos os sentimentos experimentados no começo da viagem como medo, ansiedade e apreensão voltaram à tona quando estava preparando novamente minha bagagem. Contudo, dessa vez, eles encontraram um Gabriel diferente, um Gabriel transformado pelas realidades cruéis e sofridas nas quais pode estar por alguns meses. E esse mesmo Gabriel pensava: “seja o que for, será parte do aprendizado”. Lembrava Zaratustra quando dizia que: “leve o tempo que for, mas, após escolhido, não recue ante nenhum pretexto, pois o mundo tentará te dissuadir”. Trocando em miúdos, dentro de mim, apesar dos medos, soava uma voz que dizia: “Já tamo aqui brother, toca o pau!”.

E lá fomos nós, mais oriente ainda!

As noticias que vinham da Tailândia não eram lá muito animadoras. Alguns meses antes, em maio, houve um golpe militar e uma junta formada por algumas pessoas leais ao exército estava administrando o país, tendo exilado e prendido alguns dos líderes anteriores democraticamente escolhidos. A crise era mais profunda do que apenas se noticiava, não sendo apenas “mais um golpe na tão conturbada região”. Aconselho ao leitor, se deseja aprofundar e compreender um pouco mais o tema, a leitura de um texto, clicando aqui.

541px-Thailand_(orthographic_projection).svgA Tailândia é um país que se encontra no meio da península da Indochina e da Península Malaia. Possui uma população de cerca de 68 milhões de pessoas e faz fronteira com países como Myanmar, Camboja, Laos e Malásia. Antigamente conhecida como Sião, é um destino turístico muito procurado por conta de suas praias. Obteve, entre os anos de 1985 em 1996, um grande crescimento econômico, muito ancorado no mercado externo e que, com a crise asiática de 1997, foi bastante debilitado. Atualmente é o maior exportador mundial de arroz. O principal esporte do país é o Muay Thai (tipo de boxe no qual é permitido o uso das pernas), mas também se pratica muito Badminton e um tipo de futevôlei, mas com uma pequena bola de palha.

Bangkok e sua região metropolitana são um lugar que não perde para nenhuma outra grande cidade mundial, como São Paulo ou Nova Iorque. Ancorada no turismo, essas cidades cresceram e se desenvolveram nos padrões ocidentais. Ao descer do avião e tomar um taxi em direção ao meu destino, tive a nítida sensação de voltar para o futuro.

Infelizmente meus amigos engenheiros e arquitetos não fariam sucesso aqui. É proibido aos estrangeiros exercer essa profissão na Tailândia.
Infelizmente meus amigos engenheiros e arquitetos não fariam sucesso aqui. É proibido aos estrangeiros exercer essa profissão na Tailândia.

Uma grande avenida larga liga a região do aeroporto à Cidade e podemos ver, logo na chegada, muitos prédios e propagandas. Essa minha impressão foi aprofundada quando descobri que estamos no ano 2557 (segue-se por aqui o calendário Budista). Tive, portanto, a nítida sensação de avançar no tempo!

A cidade parece uma obra a céu aberto e para todos os lados é possível encontrar guindastes construindo arranha-céus espelhados ultramodernos. Para se locomover dentro da cidade, o modo mais adequado e mais rápido é o “skytrain”, um tipo de metro que passa por cima de avenidas e viadutos e, muitas vezes por cima dos prédios e liga regiões distantes em poucos minutos. Contudo, embaixo desses prédios lindos e altos e dessa rede de transporte, pode se fios elétricos amontoados (os chamados “gatos” no Brasil aqui viraram Tigres) e muita pobreza.

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Além do Skytrain, se pode locomover por metro (que possui muito mais linhas), utilizando a rede de ônibus com faixas exclusivas, de barco entre os grandes rios que cortam a cidade ou mesmo de “Sontew”, uma espécie de caminhonete adaptada para transporte local. Em última opção, escolha o taxi. Não pelo preço, mas sim pelo transito, que é caótico.

Detalhe na camisa do vendedor de peixe
Detalhe na camisa do vendedor de peixe

Uma das coisas que qualquer pessoa que chega à Tailândia logo percebe e se impressiona é com a quantidade de comida vendida nas ruas. Cheguei ao ponto de questionar os irmãos que morei junto se era costume não ter cozinha nas casas. A todo o momento e em todas as ruas (acreditem, TODAS as ruas!) existem pessoas vendendo algum tipo de comida e outras muitas comendo. De dia ou de noite, não importa o momento, você sente o cheiro (às vezes não muito agradável) das comidas e frituras. Essas vendas dividem espaço nas calcadas com as pessoas e nos horários de pico não adianta ter pressa, você terá que andar devagar, pois não existe para onde “cortar”. Ademais, além de comidas, existem bancas que vendem de tudo, desde dvd´s até guarda chuvas, passando por frutas e capas de celular, perucas, peixes de todos os tipos, tamanhos, cores e variedades, bolachas, bandeiras.

Essa situação faz com que ratos e baratas não sejam difíceis de encontrar. Atraído pelas comidas, muitas vezes esses bichos acabam virando o próprio alimento. Não cheguei a encontrar um lugar que vendesse essas “iguarias” e confesso que não sei até que ponto minha coragem (e meu estomago) me autorizariam a degustá-los.  Contudo, não era incomum acabar tropeçando em algum rato pelas calçadas e como os vendedores iam e voltavam todos os dias, durante a noite esses animais ficavam entre as mesas e cadeiras por estes deixadas para o dia seguinte.

Mercado onde se vende de tudo na linha do trem. Quando ele vem, recolhe-se tudo e, ao passar, voltam as vendas!
Mercado onde se vende de tudo na linha do trem. Quando ele vem, recolhe-se tudo e, ao passar, voltam as vendas!
E ai, vai encarar?!?
E ai, vai encarar?!?

Por ter se desenvolvido muito por conta do turismo, o povo de Bangkok está acostumado a receber pessoas de fora. A grande maioria da comunicação visual está em Thai e em Inglês e não é difícil de localizar. O povo também está mais acostumado à presença de estrangeiros. Então, não tive por aqui a sensação de ser um “extraterrestre” que a curiosidade Sri Lankesa me fazia passar.

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Proibido de entrar com shorts, fui obrigado a alugar uma calça para visitar o “Golden Temple” (Templo Dourado)

A rede turística em Bangkok é algo para se elogiar. Existem muitas atrações, monumentos e lugares interessantes para se visitar e o acesso a esses lugares é muito bem sinalizado. Por outro lado, é mundialmente conhecida também como a Capital Mundial da Prostituição e existem diversos problemas inerentes a essa condição, como trabalho escravo e tráfico de pessoas, sendo alvo de diversas campanhas contrárias, de sucesso relativo.

Durante meus primeiros dias, antes de começar o trabalho no Centro de Educação para Migrantes (trabalho este que será alvo de um próximo texto), com a companhia do Br. George (um simpático irmão da França que estava a caminho do Camboja) pude visitar alguns lugares, tais como o Templo Dourado, o Buda Deitado e o antigo palácio do rei.

Essa foi, também, uma surpresa que tive ao chegar à Tailândia. Aqui é um Reino e, sendo assim, a família Real é quem comanda o Estado, tendo como atual líder o Rei Bhumibol Adulyadei, que está no trono desde 1946 e, por conta de sua saúde debilitada, não faz mais aparições públicas. Todavia, por todos os lugares é possível encontrar fotos do rei e da rainha e o povo por aqui realmente venera essas duas figuras, prestando-lhes reverências a todo momento. Até mesmo nas notas de dinheiro é estampada a foto do rei. Nas escolas, nos bancos, nas estações de trem e por todos os lugares se encontra fotos da família real.

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Foto da rainha em uma das estações do Skytrain.

Existem três bandeiras na Tailândia: a do governo, com listras vermelhas, brancos e azuis; a do rei, amarela com o brasão da família real ao centro; e a da rainha, azul com o mesmo brasão. Confesso que para mim foi um pouco difícil entender tudo isso. É como se, no mesmo espaço geográfico, coabitassem países diferentes. Por ser uma monarquia constitucional, o rei é o líder do estado e o primeiro ministro é o líder do governo. Trocando em miúdos, o rei reina e o parlamento governa (ou no caso atual, os militares após o golpe). O rei é, por outro lado, um símbolo de estabilidade e é intitulado chefe de Estado, chefe das Forças Armadas e defensor da religião budista.

Por aqui, 95% das pessoas são budistas e todas as manhas filas e filas de monges saem pelas ruas buscando as oferendas em comida que lhes são doadas e abençoando as pessoas, que lhes oferecem flores e lavam seus pés. As casas são pequenas e apertadas, os prédios altos e estreitos, e a vida das pessoas acaba indo parar na rua.

Já havia lido algumas coisas sobre esse país e minha desconfiança foi confirmada ao chegar. Este país é, pois, uma ilha de desenvolvimento cercada por um oceano de pobreza. Vou me explicar melhor. A Tailândia está no centro de uma região marcada por anos de sucessivas guerras, crises econômicas, ditaduras militares e muito atraso econômico. Basta olhar para seus vizinhos e a história comprovará: Vietnam e suas divisões internas, que causaram cerca de seis milhões de mortes em 15 anos;  Myanmar, com seus regime exclusivista, no qual ninguém podia entrar ou sair do país, e seus quase 50 anos de ditadura militar que colocou o país entre um dos menos desenvolvidos do mundo; Camboja e o Khmer Vermelho do Genocida Pol Pot; sem contar a proximidade com China, Índia e Bangladesh.

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Sala de aulas com crianças refugiadas e migrantes do Myanmar

Ou seja, a despeito de a situação interna também não ser lá das melhores, o país virou destino de muitos refugiados desses e de outros conflitos no mundo, atraídos pelo grande escritório das Nações Unidas em Bangkok e pela facilidade de entrada no país com o visto de turista. Estima-se que cerca de quatro milhões de pessoas estão como refugiados na Tailândia (a grande maioria destes ilegais, é claro) e existem nove campos de refugiados na fronteira com o Myanmar, mantidos pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados).

Acho que vou ter que encontrar um outro caminho pra casa!
Acho que vou ter que encontrar um outro caminho pra casa!

Ao chegar, a situação já estava um pouco mais calma. Algumas semanas antes, segundo relatos, eram possíveis encontrar grandes barricadas e a presença dos militares era mais sentida. Eu percebi, sim, reflexos desse momento de instabilidade interna. Contudo, foi tudo muito mais brando e suave do que eu imaginava. Apenas uma vez fui impedido de circular, em uma estação do Skytrain. Por sorte na mesma estação era também um ponto do metro e este estava aberto.

Como puderam ver, a Tailândia é um país, portanto, que vive uma encruzilhada e muitos contrastes evidentes. Está com pé no futuro e outro no passado. Tem cidades, como a capital, extremamente desenvolvidas, mas não consegue se desvencilhar da sua história e de seus vizinhos; teve um alto desenvolvimento econômico, mas, ao sair da região de Bangkok, parece que se volta no tempo com nível de pobreza das pessoas; tem os olhos voltados para o futuro, mas os pés arraigados em tradições sociais atrasadas; olha pra frente mas não se desamarra do passado.

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1 thought on “De volta para o futuro”

  1. Passado e futuro,impressionante….nesse momento o que mais importa? O ” presente” que é dado por DEUS, viva-o intensamente e outros passados serão recordações, memórias que construíram um futuro abençoado!! Continue seus vôos e seus pousos. Felizes pela sua felicidade! Bj Filho

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