Música, Reflexões Pessoais

Dois Pássaros

Sou cotidianamente perguntado: “Qual foi o melhor lugar que você esteve?”, “Qual a situação que mais te marcou?” ou outras questões difíceis de serem respondidas. Tudo têm sido muito impactante e profundo, cada qual a sua maneira. É muito difícil dizer o que me marcou mais: o dia a dia com crianças refugiadas, os olhares tristes da zona de guerra ou a vida sofrida pós-tsunami. Qualquer escolha que eu fizesse seria imprudente e, quiçá, injusta.

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“Apoderar-se de si, recombinando atos, não sou quem estou aqui, sou um instante passo”

Respondo, então, que a única certeza que tenho é que essa viagem está sendo um grande encontro comigo mesmo. Tenho visto muitas coisas, passado por muitas situações em lugares que nem nos meus melhores (ou piores!) sonhos imaginei estar e vivenciado sentimentos variados que nem eu mesmo sabia que existiam. Tudo isso tem me feito abrir os olhos para mim mesmo, tem me feito, parafraseando F. Anitelli, me “apoderar de mim mesmo”. Existem, dessa forma, duas viagens complementares: aquela que todo mundo vê, na qual estou passando por vários lugares e desenvolvendo diversos trabalhos; e aquela que ninguém vê, para dentro de mim mesmo.

E toda viagem que se preza precisa (PRECISA!) de uma boa trilha sonora. Filho do Seu Donizetti que sou não deixaria jamais as músicas passarem despercebidas e estou preparando, para o fim da viagem, um post sobre a “Trilha Sonora” de 2014. Contudo, gostaria de antecipar uma delas, pois foi uma bela história ainda sem final (o que me enche de ansiedade!).

Apaixonado por música, tudo o que cai na minha frente eu escuto e com a capilaridade que as redes sociais possuem hoje em dia, fica fácil ouvir músicas de todo o mundo (e confesso que muitas vezes de qualidade “duvidosa”). Facebook é vitrine pela qual se tenta vender muitas coisas. Se vende a ideia de um relacionamento perfeito, se vende a ideia de beleza e felicidade infinitas, se vende (de fato!) produtos e serviços. Ali ninguém é triste, ninguém tem cara inchada pela manhã, ninguém tem mal humor. Contudo, apesar da pseudo “falsidade” dessa ferramenta de conexão social, foi ela que me proporcionou uma das experiências mais bacanas dessa viagem e me fez ter sentimentos muito verdadeiros.

Caiu na minha timeline, compartilhado por não me lembro qual amigo, uma música chamada “Será Você” de um cantor chamado Bruno Guerra. Como sempre, quando o assunto é música, cliquei para ouvir e logo fiquei surpreso. No instante seguinte ao final da música, fiz o download de todo seu disco que logo se tornou o mais tocado em meu iPod. Suas canções falam sobre temas variados e são de uma qualidade musical que me impressionaram desde o primeiro acorde. Lançando mão de rimas “ricas”, sem perder a simplicidade, Bruno conseguiu, com uma de suas músicas, me “explicar em versos”, sobretudo a respeito de toda a mudança que ocorre em mim com essa viagem.

Entrada do Centro de Detenção de Refugiados em Bangkok
Entrada do Centro de Detenção de Refugiados em Bangkok

Certo dia estava saindo do presídio para refugiados na Tailândia (calma, não fui preso, estava indo visitar um cliente do Paquistão) e estava muito pra baixo, não apenas com a situação e a realidade que ali enfrentei, mas com a vida em si. Estava pensativo sobre meu futuro, minhas decisões e escolhas. Enfim, aquela crise normal que todo mundo passa às vezes, mas que devido ao tamanho e profundidade das experiências que tenho vivido, misturada com a saudade, ficou maior.

De repente começou a tocar a seguinte música, chamada “Dois Pássaros”:

Confesso que eu tenho em mim Uma represa de vontades
Que descem por dois caminhos

Confesso que um deles aperta contra o peito
Confesso que o outro espraia pelo mundo
Como um vento rarefeito

Eu confesso que tenho entre meus braços
O cansaço dos meus planos
A incerteza dos meus passos
Confesso que eu tenho em mim

Confesso que eu tenho em mim Dois pássaros aprisionados
Que sonham com dois caminhos

Confesso que um deles voa alto e sem sentido
E o outro, mais contido, dá rasantes pelo mundo
Como um Ícaro perdido

Eu confesso que tenho entre meus braços
O cansaço dos meus planos
A incerteza dos meus passos
Confesso que eu tenho em mim
Dois pássaros

Eu confesso que meus pássaros são, no fundo, coisa só
Que ao ruflar de suas asas destelha minhas casas
Transformando tempo em pó.

A arte chega aonde as palavras não chegam. Ela vai além e descreve sentimentos e emoções. Ao ouvir esta música, fiquei sem reação. Me sentia “descrito” em acordes, “abraçado” nos versos profundos daquela canção. Era como se o Bruno cantasse meu coração, como se ele estivesse falando sobre mim, como se aquela letra fosse uma carta de mim para mim mesmo. Me senti descortinado, invadido por uma estranha sensação de solidão e pertença, de ausência e completude.

A letra fala sobre a dificuldade das escolhas, dos sentimentos muitas vezes contraditórios que possuímos, do medo de arriscar, do futuro incerto e (muitas vezes) maravilhoso. Nela encontrei explicação para coisas que nem eu mesmo tinha a ciência que estava sentindo. Com ela pude me entender melhor no meio dessa loucura toda. Nela encontrei um pouco de compreensão. Em uma rua perto do presídio eu sentei na guia e comecei a chorar, sozinho. Acho que foi a única resposta que consegui dar foram as lagrimas. Fiquei ali por meia hora repetindo a musica inúmeras vezes, atitude essa que tenho feito desde então sempre que preciso me sentir calmo.

Aulas com refugiados na Tailândia
Aulas com refugiados na Tailândia

As músicas do Bruno não fizeram bem apenas para mim. Durante meu período na Tailândia, tive a oportunidade de trabalhar, também, como professor de algumas turmas de crianças refugiadas do Myanmar (como terei a oportunidade futuramente de escrever sobre este trabalho). Certa vez, conversando com a minha primeira professora (ou seja, minha mãe), com quem tive o privilégio de dividir caronas para a faculdade (Sim, eu ia pra faculdade com a minha mãe porque ela nunca quis – e pelo visto nunca vai querer – parar de estudar e isso foi um dos maiores incentivos que pude ter na minha formação), ela me disse que música na sala de aula era uma boa estratégia pra acalmar os alunos e criar um ambiente favorável ao aprendizado.

Pois bem, por conta da realidade sofrida que essas crianças viviam, decidi fazer o teste e colocava, em todas as minhas aulas, músicas para elas ouvirem. E qual não foi a minha surpresa que as músicas do Bruno eram as que mais faziam sucesso entre eles. Sem compreender nenhuma palavra das canções, as crianças ficavam mais tranquilas e se concentravam mais nas atividades. Em algumas faixas um pouco mais animadas, alguns até levantavam e dançavam, fazendo aquela graça inocente típica de criança.

Decidi, então, que deveria ir conversar com essa pessoa que tanto tocava a minha vida e a de tantas crianças refugiadas (sem saber) através de seu trabalho. Em uma rápida pesquisa descobri, para minha surpresa, que o cantor é residente na minha cidade (Londrina – PR) e que tínhamos alguns amigos em comum. Me senti, frente a esses acontecimentos, instigado a enviar uma mensagem pessoal de agradecimento. Por um tempo hesitei, afinal, eu seria apenas mais um fã dentre tantos outros, mas acabei por enviar uma mensagem contando um pouco da história que aqui descrevo, do quanto aquelas músicas me faziam bem e também àquelas crianças.

brunoNum gesto extremamente amável e atencioso recebi uma resposta emocionada de Bruno, me pedindo com toda alegria o endereço para que ele enviasse cópias de seu álbum para as crianças. Infelizmente não foi possível o envio a tempo, mas apenas a alegria de ver aquelas crianças dançando já me transbordava de emoção. Questionei Bruno a respeito de sua inspiração para “Dois Pássaros”, por conta da minha instantânea identificação. Sua resposta foi:

“A minha inspiração não sei de onde veio. Acredito que é algo Divino. A arte é uma energia inteligente que usa algumas pessoas para transmitir boas energias. Sou apenas um instrumento dela. Acredito nisso”.

Conversamos por mais alguns parágrafos e combinamos de nos encontrar quando voltar para o Brasil. Sem que ele saiba (talvez saiba após ler esse texto), conversei com uma ex-colega de trabalho, Maria Helena, que é amiga de sua família e ela vai proporcionar esse encontro (em suas palavras, com um “bom churrasco” rs). Não nos conhecemos pessoalmente ainda, mas tenho certeza de estar falando de uma ótima pessoa, porque apenas aqueles iluminados, com sensibilidade e humanidade verdadeiras conseguiriam escrever poemas como esses e melodias universais, que tocaram fundo o meu coração e das crianças refugiadas.

Como fã e admirador, ao voltar, farei questão de tirar uma foto e pedir para autografar meu CD, mesmo que seu maior autógrafo já tenha sido impresso em meu coração e na vida dos meus alunos.

(Recomendo que você, leitor, baixe as músicas de Bruno Guerra e comprove tudo isso que estou dizendo. Você pode fazer o download clicando aqui. )

Site oficial: http://brunoguerra.mus.br/

Bônus track!

Se você chegou até o final desse texto, vai ter a alegria (ou nem tanto assim) de ouvir a nova versão da música acima citada. Espero que o Bruno me perdoe por fazer isso com sua linda canção, mas é só pra dar uma “roupagem” diferente, mais asiática rs. Não interpretem, por favor, o vídeo como mais uma dessas besteiras que fãs fazem (por mais que seja!).

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7 thoughts on “Dois Pássaros”

  1. Simplesmente você…..Palavras não conseguiriam traduzir todos os meus sentimentos de felicidade!
    Saudades sempre… mas na certeza sempre de ser feliz com a tua felicidade!
    Obrigada por me proporcionar mais esse momento de alegria! Te amo!

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  2. Oi Paulista, sou tia do Bruno e mãe do Guilherme Luiz Guerra Vicente, que participa da PJM (e que apresentou você com este apelido, em uma lanchonete de beira de estrada quando voltávamos de Atibaia), motivado também por você. Emocionantes suas palavras, traduzem uma alma pura em busca de respostas coerentes com um mundo de paz e de igualdade. Que os ideias de Marcelino Champagnat, muito mais ainda de Deus, o iluminem em sua trajetória com caminhos bem distintos na construção de uma juventude sadia. Abraços! Célia Guerra

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  3. Parabéns pelo seu trabalho, pela vida que você escolheu ter, ou essa vida te escolheu! Parabéns por transformar as vidas por onde você passa!
    Desejo toda a felicidade na simplicidade para você!
    Beijos.

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