Tailândia

Good Morning, Mr. Gabriel

Uma das mudanças que tem acontecido dentro de mim é que compreendi, depois de meses, que não adianta o tanto que eu conte, mostre fotos ou mesmo enriqueça de detalhes minhas descrições: eu nunca vou me sentir completamente satisfeito, nunca vou sentir que realmente consegui exprimir exatamente meus sentimentos com tudo que vivi. Isso faz com que me sinta envolto por uma estranha angústia que sou obrigado a driblar, assim como muitos outros desafios. Independente disso pretendo continuar escrevendo por aqui, mesmo depois de voltar. Alivia um pouco o peso de não me sentir compreendido.

Para começar, peço ao leitor que veja esse vídeo (para entrar no clima do meu relato emocionado):

Meu tempo na Tailândia foi de profundo aprendizado, muito mais do que profissional, mas, sobretudo, humano. Ali senti que fui ao mais profundo de mim através das diversas situações que presenciei. Durante meu período por lá (final de julho até o meio de setembro) tive dois principais trabalhos e um deles buscarei explicitar nesse texto. Não estava nos meus planos iniciais, como já dito em outro momento, ir para a Tailândia. Contudo, depois de terminado, tenho mais do que certeza que estava tudo previamente preparado por Deus. jesussmiling

Cada vez mais me convenço de que “o homem planeja e Deus, lá de cima, apenas ri”.

Ao longo do mês de agosto trabalhei em uma escola gerida pelos Irmãos Maristas e de propriedade da diocese local que ficava na cidade de Samut Sakhon, distante cerca de 1h30min de Bangkok. Neste lugar, chamado “Marist Center for Migrants”, são atendidas cerca de 115 crianças, todas vindas do Myanmar (antiga Birmânia), um país vizinho que passa há anos por grave crise econômica e conturbada situação política.

Em busca de melhores oportunidades ou mesmo fugindo de perseguições politicas/religiosas, essas crianças ali chegavam sem qualquer perspectiva de retorno. A grande maioria de seus pais ou responsáveis trabalhavam nas fábricas de peixe, com salário médio de 3 dólares/dia e vinham de diferentes tribos, algumas delas rivais. Não era incomum (como aconteceu comigo por três vezes) que perdêssemos alunos de um dia para o outro porque seus pais exigiam que fossem trabalhar para aumentar os ganhos familiares e, por conta de sua ilegalidade, os empregadores davam “oportunidade” para essas crianças, isentos de qualquer responsabilidade penal (e amparados pela “vista grossa” [leia-se “corrupção”] da polícia local). Muito além do que a educação, um dos nossos objetivos era de manter as crianças a maior quantidade de tempo possível longe do trabalho, que invariavelmente chegaria muito antes da hora. Dávamos, ali, a oportunidade para as crianças serem crianças, mesmo que não fosse pelo tempo desejável.

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Andrew, meu amigo malaio com um grande coração!

Dividi esse meu tempo de trabalho com um dedicado e muito amoroso malaio chamado Andrew e pudemos compartilhar não apenas o trabalho e nossas refeições, mas também visões de mundo e profundas experiências de solidariedade. Uma grande pessoa que não tem o tamanho que demonstra e que ficará marcada para sempre como uma das mais importantes no melhor ano da minha vida. Extremamente humilde e simples, Andrew trabalha dia e noite apenas pensando naquelas crianças e em como ser mais útil para elas. Morávamos em um conjunto de moradias populares construído para abrigar os refugiados e migrantes.

Além das aulas e toda a parte de gestão da escola, ele tinha que fazer, no início de cada ano letivo, um trabalho de convencimento junto aos pais das crianças, para que estes não as tirassem da escola. Ele coordena uma equipe de outros três dedicados professores e com eles pude trabalhar durante algumas semanas. Ministrava, para as quatro turmas, aulas de inglês, educação física e outras atividades extracurriculares.

Quem quiser saber mais sobre a escola, clique aqui.

Equipe de Professores - Samut Sakhon
Equipe de Professores – Samut Sakhon

Minha primeira impressão foi um pouco chocante. Com caras muito fechadas, os alunos eram extrema e rigidamente disciplinados: Ao chegar, vinham até minha frente e me cumprimentavam com as mãos juntas (“Good Morning Mr. Gabriel” era repetido por TODOS), rezavam e cantavam o hino dos dois países pela manhã (Myanmar e Tailândia) e sempre ao cruzar alguns dos professores, abaixavam a cabeça.

Meu espanto foi proporcional à minha alegria quando, superada essa primeira impressão, essas crianças demonstraram a maior docilidade, amor e carinho que já pude experimentar, demonstrações estas totalmente inocentes e desinteressadas.

DSC06839Elas vinham de uma realidade extremamente sofrida: fugidos de seus países, agora moravam de forma extremamente precária em um lugar onde não compreendiam nada, não falavam sua língua, distantes de sua cultura. Uma realidade na qual a crianças (e a mulher, diga-se de passagem) é inferior e subjugada aos desmandos das autoridades (pais, avós, professores). Castigos corporais não eram incomuns e essa foi a maior dificuldade que tive que aprender a lidar (leia-se “tolerar”). Não foram poucas as vezes que me reclamavam de dores nas mãos por reguadas e, ao colocar minha cabeça no travesseiro, apenas conseguia me lembrar deles.

Não podia mudar essa situação cultural em um curto espaço de tempo. Andrew me confidenciou que esta situação está melhorando e para me acalmar disse que muito tem sido feito nesse sentido, mas que também sofre com isso. Decidi, então, que se não poderia mudar essa realidade, ao menos poderia fazer diferente nas minhas aulas e a resposta foi tão imediata e verdadeira como o olhar daquelas crianças.

Como orientado, eu evitava tocar as crianças. Esse tipo de contato corporal era “mal visto” na cultura deles. Contudo, com o passar do tempo, tanto elas como eu rompemos essa barreira e pelas manhãs era recebido com milhares de abraços e beijos (a ponto de minha calça rasgar naDSC07259 altura das coxas e joelhos após duas semanas). Sentia que aquelas crianças tinham essa necessidade, de se sentir tocadas e de sentir afeto através das mãos e braços (justo eu, que nunca fui lá chegado a abraços rs). Fiquei muito feliz, quando fui embora, com os “Obrigados” que recebi. Contudo, a maior demonstração de carinho e confiança que recebi foram os beijos e abraços diários.

Por tudo que elas passavam, guardadas as devidas proporções, sinto que de alguma forma me senti identificado com aquelas crianças. Contudo, passava por essas dificuldades por escolha minha e tinha um olhar adulto, “positivo” e de aprendizado sobre tudo o que vivia, bom ou ruim. Elas não. Aqueles pequenos são forçados a crescer longe daquilo que lhes é particular, daquilo que lhes dá identidade; forcados a crescer com medo de serem descobertos, com receio de a qualquer momento ser forçados a trabalhar e deixar a convivência com o pouco que ainda restou de Myanmar dentro deles: a escola!

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Planejava minhas aulas com alegria e pelas manhãs um bom humor tomava conta de mim. Não consigo explicar em palavras o sentimento que tinha quando a sexta feira chegava. Ficava com medo de perder algum aluno e não ter tempo de me despedir; triste por ter que ficar dois dias sem vê-los. Contudo as segundas de manhã eram extraordinariamente felizes. Desenvolvíamos atividades simples, aprendendo algumas palavras e frases com jogos e brincadeiras, e isso era mais do que suficiente, pois a verdadeira aula estava não no conteúdo, mas sim no “estar junto”, na presença significativa. Meu pouco ali para eles era muito e sei que pude, por pouco tempo, transformar a vida daqueles pequenos pelo simples fato de olhar para eles como eles são e dar oportunidade para que assim sejam: crianças!

Após os hinos e as orações, era sempre recebido na sala de aula com um sonoro (e escandaloso!) “Goooooood Morning Mister Gabriel”. Ao chegarem, uma das coisas que mais chamava atenção era um pó branco que usavam no rosto. Explicaram-me que cada tribo no Myanmar tinha um desenho especifico e foi apenas eu dar a liberdade para um dia um me pintar que todos os dias queriam desenhar seus símbolos em meu rosto.

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Com o rosto pintado e o coração cheio

Aquelas crianças, com sua vida, sua inocência e seus olhares, me ensinaram muito mais do que qualquer faculdade e a cada dia de trabalho eu sentia que levava muito mais do que deixava; que aprendia muito mais do que ensinava; que saia de lá transformado; que tinha sido o melhor de mim. Minhas energias eram sugadas pela sua “carência” e vitalidade típicas de criança e eu ia para casa todos os dias extremamente esgotado, porém com a alma e o coração cheios.

Estava, ali, despojado de tudo. Queria apenas ser o que elas precisassem que eu fosse. E foi quando me perdi de mim mesmo que me encontrei nelas, foi quando me esvaziei que pude me preencher com todo aquele carinho, ainda que não nos compreendêssemos.

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Peço agora que volte ao começo e reveja o vídeo inicial. De fato, sentimentos não respeitam padrões culturais e abraços e beijos podem ser muito mais do que isso!

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9 thoughts on “Good Morning, Mr. Gabriel”

  1. Paulista,
    ….”Queria apenas ser o que elas precisassem que eu fosse.”
    Esta frase muito me diz, pois em alguns dos meus dias no colégio foram assim. Não importa onde estejamos,
    seja em Samut Sakhon seja em Londrina numa escola onde achamos que as crianças são felizes porque tem tudo e algumas muito mais, mas encontramos essas crianças vazias cada qual com suas necessidades e que muitas vezes um único abraço ou uma palavra de carinho transformavam um pouco da sua realidade. Hoje, depois de me tornar um Marista, entendi o privilégio de ser enfermeira…poder me doar e fazer algo pelo outro como profissão. Cada um de seus depoimentos me emocionam muito de forma incondicional e tenha a certeza de que você está se fazendo entender. Com toda certeza as emoções são triplamente aumentadas mas estamos participando e viajando um pouco junto com você em cada depoimento. Muitas saudades, amigo.

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