Música, Reflexões Pessoais

Se meu iPod falasse

Toda criança ganha muitos presentes de seus pais. Além do amor e carinho, recebe coisas materiais que simbolizam esses sentimentos únicos que apenas pai e mãe sabem o que é (e eu sempre ouço, assim como muitos de vocês, o famoso: “o dia que você for Pai você entenderá”). Durante minha infância e adolescência eu também recebi de meus pais muitas coisas: lembro-me, em especial, da minha primeira bicicleta vermelha e do meu “super-nintendo” (que meus pais pagaram com muito trabalho).

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Além de jogar, tínhamos que desenvolver a habilidade para fazer as fitas funcionarem com sopros e, algumas vezes, pontapés!

Meus pais sempre me ensinaram, ademais, o valor imaterial por trás de cada objeto: a conquista, o merecimento e o sacrifício. Ai de mim se tirasse nota baixa ou mesmo se não fizesse o que eles me ordenavam. Não fazia o que fazia simplesmente para ter as coisas. Com isso, meus pais me ensinaram que tudo na vida tem consequência e que sempre temos o poder de fazer as escolhas; ensinaram-me a pesar e medir minhas ações e decisões, por mais doloroso e conflituoso que ainda seja assim tomá-las, do alto do meu quarto de século.

Contudo um dos presentes mais bonitos que recebi de meus pais foi algo totalmente inesperado e incomum. Uma criança, antes de nascer, recebe várias coisas, tais como brinquedos, mamadeiras, chocalhos, roupas, tudo com aquele aroma delicioso típico de bebê. Todavia, ainda na barriga da minha mãe, recebi de presente de meu pai um disco (sim, apesar de ser relativamente novo, nasci na época dos discos). Bom, o máximo que um bebê recém-nascido faria com o disco seria colocá-lo na boca e deixar seus pais malucos com isso. Porém, em sua capa havia uma linda dedicatória:

Aprendendo a tocar ukulele, instrumento típico.
Aprendendo a tocar ukulele, instrumento típico.

“Meu filho, você ainda não entende o que isso significa. Porém, quando crescer, quero te deixar esse presente: quero te ensinar a gostar de música, e música de qualidade. Teu pai”.

Mal sabia Seu Donizetti que aquele gesto repercutiria por toda minha vida, ecoaria por toda minha existência como uma bela e suave partitura forjada no cotidiano do meu viver. Mesmo com as reclamações de minha mãe sobre a altura do volume, meu pai sempre ouviu muita música em casa e eu, invariavelmente, acabei sendo atraído por esse gosto. Apesar de ter minhas preferencias, sempre ouvi de tudo e isso se demonstrará no ecletismo da seleção a seguir.

Acredito que os sentidos existem para preencher os espaços vazios deixados pela razão. Através deles colorimos os contornos vividos, recheamos as experiências passadas, iluminamos o racional. Aquele cheiro da casa da vó, aquela música da adolescência, aquele gosto de uma desilusão: todos temos essa memória imaterial dentro de nós. E para mim, em especial, as músicas sempre foram marcantes. Com música tudo fica melhor!

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“Guitalele” da Tailândia

Lembro-me de músicas para cada uma das etapas e momentos da minha vida e, frente à incrível experiência que passei este ano, muitas também foram aquelas que marcaram, seja pela letra, pela melodia, ou por simplesmente terem tocado em momentos especiais. Meu iPod foi meu maior companheiro. Ele esteve comigo em todas as situações e lugares por onde passei, me tirando da solidão, me fazendo pensar ou mesmo me distraindo enquanto o tempo não passava. Ele me viu chorar, me viu sorrir e viu também todas as pessoas e lugares que cruzei, mesmo que apenas de dentro do meu bolso.

Sendo assim, caros leitores, gostaria de compartilhar com vocês minha “Trilha Sonora 2014”, que muito mais do que apenas canções, representa um marco na minha vida. Desculpe-me se frustrarei alguns desavisados, mas não se encontram nessa seleta lista de 21 músicas exemplares como “Lepo-Lepo” ou “beijinho no ombro” (até porque não sei o que são essas músicas por estar fora do país o ano inteiro mas que pelo nome já não inspiram muita confiança). Até porque, como dizia a dedicatória em meu primeiro presente, 26 anos atrás, “quero te ensinar a gostar de música, e música de qualidade”.

(Acima de gostos pessoas, relembro aos leitores que essas canções foram importantes por marcarem momentos e situações e cada uma delas é especial por algum motivo, mesmo que algumas delas não façam parte, no meu cotidiano, da minha”playlist” usual.)

Abaixo estão as 21 músicas que marcaram meu ano, sem ordem cronológica ou de importância e ao final, para facilitar aqueles que desejam ouvir todas, um vídeo com elas em sequência, para que não tenha que apertar o “play” ao final de cada canção.

Daqui alguns anos, viajando de carro com minha futura família (que pretendo que esteja recheada de filhos), quando algumas delas tocar no rádio, estou seguro desde já que invariavelmente um sorriso aparecerá em meu rosto e lembrarei dos gostos, cheiros e pessoas, pois apesar de todo o sofrimento e dureza da vida “crua” que encontrei durante essa viagem, essa música me lembrará de um dos melhores (quiçá o melhor) anos da minha vida. Vou para o carro à beira do caminho e contar boas histórias.

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Saibam que nelas encontrei refúgio, me tele-transportando para onde queria estar, fazendo o longe ser “logo ali”, e, mesmo estando do outro lado do mundo, me faziam sentir perto de casa, ainda que para tanto precisasse apenas fechar os olhos e viajar para dentro de mim mesmo.

John Mayer – Stop this train

The Killers – Mr. Brightside

Jay Vaquer – A falta que a falta faz

Adam Levine – Lost Stars

Bruno Guerra – Dois Pássaros

Corinne Bailey Rae – Till it happens to you

Anna Kendrick – Cup´s Song

Gonzaguinha – Diga lá, coração

Eddie Vedder – Society

Bruno Guerra – Ausente

Infelizmente essa música ainda não possui  vídeo, mas pode ser ouvida clicando aqui e está persente no vídeo final.

Jack Johnson – Home

John Mayer – I don’t trust myself

Stamp – ให้ตายสิพับผ่า (The gorgeous dead)

Gilberto Gil – Se eu quiser falar com Deus

The Calling – Just that good

Thiago Iorc – Um dia após o outro

Robbie Willians – Strong

Musketeers – สิงโต นำโชคอยู่ต่อเลยได้ไหม

Vander Lee – Meu Jardim

Zac Brown Band – Let it go

O Teatro Mágico – Da entrega

Para facilitar sua vida, aqui estão todas músicas juntas, em sequência. Apenas aperte o play e “saboreie” meus sons de 2014:

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1 thought on “Se meu iPod falasse”

  1. …Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
    Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu
    E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
    Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
    Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
    Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter…

    Esse final da letra de “O filho que eu quero ter”, de Toquinho, sempre esteve em minha “play list”… posso garantir que o que escreveu acima em seu post não somente me emocionou como também me fez sentir realizado por ter o filho que tenho, sem me esquecer também da Gabriela, uma pérola na minha vida, e por receber esse presente maravilhoso que é poder passar um legado de educação e princípios. Não sou o melhor pai do mundo, nem me considero tal, tenho as minhas manias e chatices, mas saiba, tanto você quanto a Gabriela, que filhos são testamentos vivos que temos que lapidar, tentar mostrar o melhor caminho e deixar voar… voa… voa. meu filho… Obrigado por me fazer feliz.

    Teu pai.

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