Imigração, Itália, Refugiados

Uma noite. Um barco. Um sonho. Uma fuga. 368 vidas.

Hoje, 3 de outubro, se recorda o dia em que a Europa acendeu o sinal amarelo. Uma pequena ilha no meio do Mediterrâneo chamada Lampedusa, no extremo sul do continente, foi palco de uma grande tragédia que, quatro anos depois, tornou-se símbolo do drama enfrentado por milhares de pessoas que se arriscam na rota de imigração do mediterrâneo central todos os dias.

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Talvez você que esteja lendo esse texto jamais ouviu falar sobre essa pequena ilha ou mesmo não faça menor ideia das dificuldades vividas diariamente nas águas mediterrâneas. Sua “ignorância” é justificada: o que os olhos não vêem, o coração não sente.

Rotas de imigração clandestina com o objetivo de chegar à Europa com pessoas vindas do Oriente Médio e África existem há muitos anos, assim como tragédias humanitárias de igual duração e dolorosas consequências. Contudo, parafraseando Max Gonzaga, “toda tragédia só me importa quando bate à minha porta” e, justamente por isso, o dia 3 de outubro de 2013 é, infelizmente, lembrado, pois marca o dia em que a Europa não conseguiu mais jogar a sujeira pra baixo do tapete.

Para ilustrar, veja os pequenos vídeos abaixo:

Um pesqueiro à deriva no Mediterrâneo abarrotado de pessoas

O barco, como tantos outros, era um velho pesqueiro de 20 metros “adaptado” para o transporte de pessoas que partiu do porto de Misurata, na Líbia, 2 dias antes. A bordo cerca de 543 imigrantes/refugiados vindos da Eritreia, antiga colônia italiana que, atualmente, possui o 179º posto de Índice de desenvolvimento humano (entre 193 países avaliados) e que, desde 1998 vive intensos combates internos, sobretudo nas áreas de fronteira com a Etiópia.

Durante a noite, meia milha (cerca 800m) antes de chegar à uma pequena ilhota próxima à Lampedusa, com o objetivo de chamar atenção de outros barcos que por ali passavam, uma toalha foi embebida de gasolina e ateada fogo. À deriva, tal situação provocou o pânico dos que ali estavam e, pouco após, com o movimento das pessoas e o fogo descontrolado, o naufrágio era inevitável, vindo a ocorrer às 5h da manha, conforme demonstra o relógio em um dos corpos resgatados.

No início da manha seguinte, alguns pesqueiros e barcos civis alertaram as autoridades ao observarem corpos no mar e algumas pessoas que ainda conseguiam manterem-se vivas. A recuperação dos corpos durou dias, muitos deles presos ao barco a 46 metros de profundidade, pois viajavam nos andares inferiores, como demonstra o vídeo abaixo:

Números da tragédia de Lampedusa

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368 mortes, dentre as quais 9 crianças, e 20 desaparecidos, todas de pessoas que buscavam liberdade e segurança. Segundo relatos dos 155 sobreviventes, dois barcos (com descrição parecida aos utilizados pela Guarda Costeira Italiana) se aproximaram pouco antes e não prestaram socorro. Esse teria sido o motivo do fogo, buscando chamar atenção.

O “motorista” do barco, Khaled Bensalam, tunisino de 35 anos, tratado como traficante, foi condenado a 18 anos de prisão por homicídio culposo enquanto, há pouco tempo, a justiça italiana encerrou o inquérito sobre omissão de socorro, considerando-o “inconclusivo”.

Desde então, nos últimos anos, segundo dados da IOM (International Organization for Migrants), mais 15.062[1] pessoas perderam suas vidas na rota mediterrânea central, o que nos conduz ao terrível número de 10,3 vidas/dia (vale lembrar que esses números são previsões, dado que não existe uma contagem do número de partidas nem mesmo todos os corpos são resgatados).

Algo mudou?

Muito mudou a partir dessa tragédia, tanto a nível italiano como a nível europeu, com, por exemplo, o incremento das operações de busca e salvamento no mediterrâneo. Contudo, o fluxo migratório continua alto e contínuo. Apenas em 2017, segundo o Ministério do Interior, 105.806 pessoas chegaram aos portos italianos.[2]

O dia 3 de outubro ainda é, portanto, uma ferida dolorosa e dramaticamente aberta no coração da Europa, ou, como caracterizou Sergio Mattarella, presidente italiano, “um símbolo de humanidade traída”, continente esse que ainda “gira em torno ao próprio rabo” no tocante à acolhida e integração, perdido em meio a preconceitos e racismos inaceitáveis.

Lampedusa, não pelas suas belas paisagens mediterrâneas, mas por uma tragédia sem precedentes, agora é conhecida como “a porta da Europa”, porta essa que, pra muitos representa a própria vida e, para 368 seres humanos no dia 3 de outubro de 2013, estava trancada.

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Monumento “Porta da Europa”, no extremo sul da ilha italiana de Lampedusa, em memória aos imigrantes mortos no Mediterrâneo.

 

[1] Dados de 2 de outubro de 2017, no link: http://www.interno.gov.it/sites/default/files/cruscotto_giornaliero_2-10-2017.pdf

[2] Para mais informações sobre números, acessar o site do projetos Missing Migrants: http://missingmigrants.iom.int/

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