Imigração, Itália, Reflexões Pessoais, Refugiados

Tia Carmem

Então é Natal: árvore frutífera de luzinhas; comer como se não houvesse amanhã; sinos e velas sobre toalhas verde/vermelha; a tia “Carmem” (acho que todo mundo deve ter uma tia com esse nome) com aquele papo de elevador sobre a velocidade do tempo; crianças enlouquecidas com o Papai Noel magro de voz estranha; Macaulay Culkin.

natalCelebro esse natal longe dos meus e, mesmo com a saudade, consigo encontrar algumas similitudes (exceto a onipresença das uvas-passa que, por aqui, para minha alegria, passaram longe). Seja aqui ou acolá, nessa data na qual parece que tudo fica em câmera lenta – com um fundo musical da Simone ou Roberto Carlos, escolha do leitor – certas coisas não mudam e sentimentos bons afloram da mesma forma, assim como a vontade de ser alguém melhor, de fazer do mundo um lugar melhor, de viver de uma forma melhor.

Talvez porque natal é interno, é “do avesso”, é bastidores, é lá dentro, acontece onde ninguém vê. Natal não é nada além de renascimento dentro de nós mesmos. Se assim não for, é apenas champanhe e fogos de artifício. “Realmente, voou, esse ano voou”, ao fundo, tio Darci responde.

Contudo, hoje uma frase fez o meu natal com refugiados encontrar outro sentido:

“Mr. Gabriel, hoje é natal e é uma data importante para vocês, cristãos. Por isso, tenho um presente”.

Um presente de refugiado

554CF622-925C-4BF6-A73B-C2486FA1FB8EHá 8 meses Amadou era apenas um entre as milhares crianças e jovens que chegam, todos os dias, desacompanhadas nos portos italianos. Puxou-me de canto e, acanhado, me entregou um desenho feito a lápis num pequeno pedaço de papel recortado de uma das atividades que eu mesmo havia passado na semana anterior. O desenho: eu mesmo, seu professor e amigo. Desculpe Pai e Mae, mas o presente de Amadou conseguiu superar aquele Super Nintendo de 1996.

2017 anos depois, com a pureza de seu gesto, Amadou fez com que a esperança renascesse no meu coração, sentimento esse tão necessário numa data que, no seu sentido mais genuíno, prega quase tudo ao contrário do que esse ano representou nos grandes gestos da humanidade: muros, bombas, distanciamentos, intolerância.

Contudo, hoje sou um pouco mais Amadou! Não porque isso trará um 2018 sem bizarrices e estupidez humana. Mas, de alguma forma, ainda é bom lembrar que estamos por aqui e que, apesar dos pesares, isso jamais deve ser à toa.

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O simples desenho de Amadou, que ressignificou meu natal

Sou um pouco mais Amadou pois isso me faz muito mais humano! Em busca de segurança, fugindo de guerras, perseguições, fome e miséria, ele é um dentre os muitos “Jesuses” que seguem buscando sua manjedoura. Com seu simples gesto de desenhar seu professor, Amadou me mostrou que é na simplicidade que Jesus nasceu e é nela que continuamos a encontra-lo, ainda que, no caminho, a Tia Carmem aperte nossas bochechas.

 

Feliz Natal!

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