Imigração, Itália, Política Internacional, Refugiados

O forasteiro que mora em nós

Hoje, 14 de janeiro, se celebra a 104° Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado proposta pela igreja católica, e o Papa, em sua mensagem expressou, a sua preocupação pela triste situação de tantos que fogem de guerras, perseguições, desastres naturais e da pobreza.

ImmigrationA partir da nossa experiência, queremos comentar sua mensagem, que inicia com estas palavras textuais: O forasteiro que mora entre nós, vós o tratareis como aquele que nasceu entre vós; vós o amareis como a vós mesmos porque também vós estivestes como forasteiros no Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus (Lv 19,34).

Todo forasteiro que bate à nossa porta é uma ocasião de encontro com Jesus, o qual se identifica com o estrangeiro acolhido ou rejeitado de cada época (cfr Mt 25,35.43). Sendo assim, tomo a liberdade de alterar a preposição: o estrangeiro não vive “entre”, mas vive “em” cada um de nós. A esse respeito – disse o Papa – desejo reafirmar que a resposta comum poderia se articular em torno de quatro verbos acolherprotegerpromover e integrar.

Acolher

“Considerando o cenário atual, acolher significa antes de tudo oferecer a migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de ingresso seguro e legal nos países de destinação” (Papa Francisco).

O Ministério do Interior italiano divulgou os seguintes dados: de 1° de janeiro a 22 de dezembro de 2017, no porto de Augusta, desembarcaram 16.483 refugiados, 93% do sexo masculino e a maioria era menores não acompanhados. Como se fazer presente num momento delicado como este? No dia 4 de agosto, o primeiro Marista se tornou operativo no porto de Augusta. “Depois de cinco meses de torturas e violência – comentou um jovem a Gabriel – vi um rosto sorridente que me apertou a mão e não me maltratava”. Vejam em https://goo.gl/9BKyhX

Mas estamos conscientes que um sorriso não pode resolver o problema do acolhimento. Tao pouco pode resolver um documento de expulsão que a polícia dá para grupos inteiros e que depois transporta para a estação ferroviária de Augusta. Gente apenas desembarcada na Itália, privada de tudo. Não só não sabem aonde ir e o que comer como não têm nem como fazer as necessidades básicas, visto que em muitas estações os banheiros são a pagamento.

Proteger

O segundo verbo, proteger, é conjugado numa série de ações em defesa dos direitos e da dignidade dos migrantes e dos refugiados, independentemente do seu status migratório. Tal proteção começa na pátria e consiste na oferta de informações corretas antes da partida e proteção em relação às práticas de recrutamento ilegal” (Papa Francisco).

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Operação de salvamento do meio do Mar Mediterrâneo

A grande maioria dos menores que nós conhecemos começou a viagem que os trouxe até a Itália sem os pais, muitas vezes em grupos com outros amigos. Quase todos tinham um celular, mas o “Google Maps” fornece só indicações “virtuais”: não indica onde os traficantes de seres humanos esperam, atrás de qual colina estão, em quais países serão obrigados a trabalhar 15 horas por dia em troca de uma vaga prometida de ajuda para continuar a viagem, nem mesmo onde serão torturados e extorquidos.

Para alguns rapazes este itinerário dura até um ano (ou mais) e ninguém o esquece: não pela sua duração, mas pelas tragédias que os acompanharam. Saliou, um jovem por nós atendido, recorda como conseguiu salvar-se numa prisão líbica. “Quando no campo chegava um novo grupo que queria partir para a Itália, o “rito de introdução” que os guardas usavam era aquele de dar ordens gritando e, na ausência ou lentidão da execução dos comandos, uma rajada de metralhadora deixava no terreno dezenas de mortos”.

O jovem recorda, também, ter ouvido disparos e de ter se salvado caindo e ficando até a noite sob os corpos dos companheiros mortos. Ler estas linhas é dramático, mas escuta-las, enquanto nos contava a história, é uma situação que enfrentamos apenas porque sabemos que falar faz bem para ele.

Promover

Promover quer dizer essencialmente trabalhar para que todos os migrantes e os refugiados bem como a comunidade que os acolhe sejam postos em condições de realizarem-se como pessoas em todas as dimensões que compõe a humanidade querida pelo Deus criador” (Papa Francisco).

“Meu filho, se você ficar aqui, com certeza morrerá. Mas se partir, talvez poderá sobreviver”. Esse foi o conselho da mãe de Souleymane, outro jovem por nós atendido, que se sentia impotente e incapaz de assegurar a vida a seu filho: é o segundo corte do cordão umbilical.

Para nós ocidentais, habituados ao aborto e à eutanásia, esta notícia pode ser considerada “normal”. Mas para ela não é, não só porque é a mãe, mas porque é africana. Depois de várias dificuldades conseguimos um contato com a mãe de

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Porto de Augusta – Dezembro.2017

Souleymane, que vive em Costa do Marfim e que fala discretamente o francês. Nós dissemos que o filho tinha chego à Itália, que estava numa casa-família com outros 7 rapazes e, quando lhe perguntamos se queria falar com o filho, escutamos gritos de alegria.

Depois de um breve momento de conversa em francês, a conversa prosseguiu em “dioula”. Passaram uma dezena de meses. Antes, quando íamos encontrar o rapaz falávamos com ele em francês, agora não é mais necessário: fala corretamente o italiano com o típico sotaque de Siracusa, frequenta a escola média e na classe todos lhe querem bem. Mas, infelizmente, não é esse o destino de todos. Há alguns meses, por exemplo, um rapaz de 15 anos de um dos abrigos nos confidenciava: “Por que, quando subo num ônibus, as pessoas olham para o outro lado?”.

Integrar

A integração não é uma assimilação, que induz a suprimir ou esquecer a própria identidade cultural. O contato com o outro nos leva a abrir-se a ele para acolher os aspectos válidos e contribuir assim a um maior conhecimento recíproco” (Papa Francisco).

Para os europeus esse verbo, entre todos os descritos nessas linhas, é o mais difícil de conjugar. É, sobretudo, o ponto de fraqueza de toda a política de imigração desenvolvida nos últimos anos, por motivos de complexa explicação social.

Eles foram por muito tempo (e de alguma forma, anacronicamente, ainda há aqueles que pensam que continuam sendo) o centro do mundo: exportaram de tudo, até a fé, e, por bem ou por mal, impuseram as coisas. Para muitos, o sol ainda gira em torno da terra e, por isso, é difícil compreender que o outro não é uma ameaça, mas uma riqueza, sempre!

Nas palavras do Papa Francisco, ao falar para a multidão reunida no Vaticano hoje, finalizo esse comentário: “Ter medo é humano e legítimo, mas, se os medos condicionam as opções, aí sim é pecado!”. O forasteiro reside em você, não importa de onde você seja.

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Reprodução: Human Rights Watch. Dezembro.2017

Texto original disponível em: http://champagnat.org/400.php?a=6&n=4601

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5 comentários em “O forasteiro que mora em nós”

  1. Não é fácil ,mas é uma realidade a ser enfrentada,nós estamos distante dessa realidade vivida por esse povo sofrido,que simplesmente querem viver e ter o direito de ser felizes, muitas vezes não compreendendo o que acontece,mas sofrendo de maneira dolorosa ,essa exploração do ser humano.

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  2. Texto para reflexões de como poder acolher, proteger, promover e integrar o próximo mais próximo… o forasteiro no interior ….e a partir daí perceber o encontro com o outro fazendo a diferença… mas… será até quando? Nada fácil, mas perceber que nesse dia para alguns ELES são lembrados e vistos como seres humanos!

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  3. ” O outro não é uma ameaça, mas uma riqueza ,sempre!!! Obrigado Gabriel forasteiro de Jesus para o mundo!!! Deus te fortaleça cada vez mais na missão e nos ajude a abrir mais o coração para o outro uma riqueza incalculável.

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