Imigração, Refugiados

O Boletim Escolar

O boletim escolar estava cuidadosamente dobrado e costurado no bolso, para não o perder: talvez fosse apenas uma questão de orgulho, talvez (e pensar isso dói) fosse a “prova” de fato de que aquele menino de 14 anos chegaria com boas intenções. Agora é inútil: seu dono, pouco mais que uma criança, foi encontrado morto no Mediterrâneo. O boletim foi encontrado por Cristina Cattaneo, médica legista, durante sua autopsia. O jovem de 14 anos veio do Mali buscando uma vida melhor na Europa. Sua história (ou o pouco que se pode imaginar) é contada em “Naufrágios Sem Rosto” (Cortina Editore), recém-publicado pela médica.

1515317038-0-naufragio-mediterraneo-mortiO adolescente estava no barco do qual centenas desapareceram: estima-se que as vítimas ficaram entre 700 e 900. Seu corpo imediatamente atraiu a atenção dos médicos: “ele pesava menos que os outros”, explica Cattaneo. “A partir da análise dos ossos do pulso chegou-se à conclusão de se tratar de alguém pouco mais que uma criança. Os ossos são formados pela união de diferentes partes menores que, durante o crescimento, se fundem. Seu tamanho e seu nível de fusão marcam as diferentes idades”, diz a médica. “Nesse caso, os ossos dos pulsos nos conduziam abaixo dos 14 anos: ele era o mais novo de todos”.

A surpresa dentro do bolso: um boletim escolar.

Quando os médicos começaram a tirar sua roupa, veio a surpresa. “Enquanto tirava sua jaqueta, senti algo duro e quadrado. Cortamos do avesso para tentar recuperar, sem danificar, o que quer que fosse. Encontrei em minhas mãos um pequeno pedaço de papel feito de várias camadas. Tentei desdobrá-las sem quebrá-las e depois li: Bulletin Scolaire. Logo abaixo, se podiam ler palavras um pouco desbotadas: matemática, ciências físicas… Era um boletim escolar. “Um boletim escolar”, repetimos, incrédulos, em voz alta”.

“Todos nós pensamos a mesma coisa: com que expectativas este jovem adolescente do Mali escondeu tão cuidadosamente um documento tão precioso para o seu futuro, que demonstra seus esforços, suas habilidades no estudo, e que ele achava que lhe abriria alguma porta em uma escola italiana ou europeia, agora reduzido a algumas páginas desbotadas e encharcadas de água?”, relata Cattaneo. Talvez seja a constatação de uma realidade amarga: um mundo impiedoso no qual um jovem de 14 anos sabe que tem que provar que é “bom” para ser escutado e, talvez, minimamente ajudado.

A triste realidade das mortes no Mediterrâneo

latoofNem isso foi suficiente para aquele menino, que morreu no mar ao procurar ajuda. Só no ano passado, cerca de 2.297 pessoas perderam a vida no Mediterrâneo, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações. (Detalhe: estes é o número de corpos resgatados, não o número total de vítimas, impossível de calcular). A OIM estima que houve cerca de 30.000 mortes nos últimos 15 anos no chamado “cemitério mediterrânico” e que 60% das pessoas que morrem quando tentam chegar à Europa (escapando de guerras, perseguições étnicas/religiosas e graves crises humanitárias) permanecem sem nome.

Uma criança, um boletim e um sonho: ter a possibilidade de estudar e construir um futuro melhor. Quantos mais precisaram afundar suas esperanças nas tristes águas da indiferença europeia?

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4 comentários em “O Boletim Escolar”

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